terça-feira, 13 de outubro de 2015

A ESCRITURA SAGRADA E A TRADIÇÃO


"Passarão o céu e a terra. Minhas palavras, porém, não passarão.." (Mateus 24:35 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Para uma melhor analise de qualquer doutrina cristã, de onde deve estar assentada a fé de qualquer pessoa que se confesse seguidor de Cristo, ou a igreja (no contexto denominacional) que se diz cristã, deve-se sempre determinar qual é a autoridade máxima de sua fé, doutrina, religião e moral.

A Bíblia é muito clara sobre esse ponto. Ela declara constantemente em suas páginas que possui autoridade, e que suas palavras são as Palavras de Deus; não no sentido de que Deus falou tudo que está escrito em suas páginas, mas sim que Ele determinou e compeliu seus autores, por intermédio do Espírito Santo, a escrevê-la. Porém há inúmeras citações diretas de sua comunicação com os profetas do Antigo Testamento pela expressão: “Assim diz o Senhor...”; “Oráculo do Senhor...”; “Veio a mim a Palavra do Senhor...” etc. No Novo Testamento temos a ação direta de Deus, na Pessoa de Cristo Jesus, discriminando abertamente que Ele é a Palavra de Deus (João 14:6); Também consta pelas páginas neotestamentárias a revelação direta da Pessoa do Espírito Santo no ministério dos apóstolos com expressões muito claras: “E o Espírito diz expressamente...” “Disse o Espírito Santo...”; “Então o Espírito de Deus...”; etc.

Há aqui uma grande contestação entre a confissão de fé Reformada (que busca sempre o retorno as Escrituras Sagradas), e a Igreja Católica Romana. Enquanto os reformados - e os atuais herdeiros da reforma – declaram que a Bíblia é a Única autoridade se tratando de fé, doutrina, religião e moral, a Igreja Católica Romana pronuncia que existem, a saber, três supremas autoridades. Em seu Catecismo (Documento impresso que determina a confissão de fé e doutrina da igreja) ela expressa-se da seguinte forma:

"Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos que um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas." (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 95) 

Vemos claramente na declaração que, a “Sagrada Tradição” (Ensino oral supostamente entregue atravessadamente pelo tempo); “A Sagrada Escritura”; e, o "Magistério da Igreja” (O encargo de interpretação da Bíblia pelos seus sacerdotes com a autoridade do Papa) possuem a mesma autoridade, estando emaranhados e vinculados uns aos outros. E ainda mais que eles contribuem de forma eficaz para a salvação do católico. 

Analisemos outro parágrafo do Catecismo: 

Dai resulta que a Igreja, à qual estão confiadas a transmissão e a interpretação da Revelação, ‘não deriva a sua certeza a respeito de tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura. Por isso, ambas devem ser aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência.” (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 82).

Confirma-se nesta declaração o que resumi acima. As fontes de autoridades da Igreja Católica devem ser aceitas e veneradas de igual modo, pois ambas são a Palavra de Deus autenticas e fieis. Dessa forma o próprio Catecismo vai explicando em seu parágrafo - “Duas Modalidades Distintas de Transmissão”-  sua teologia da seguinte maneira:

"A SAGRADA ESCRITURA É A PALAVRA DE DEUS ENQUANTO REDIGIDA SOB A MOÇÃO DO ESPÍRITO SANTO".

“Quanto à Sagrada Tradição, ela "transmite integralmente aos sucessores dos apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam". (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 81).

Torna-se bem esclarecido a questão, quando o próprio Catecismo, responde sobre uma discordância em fontes de autoridade. Ele (O Catecismo) expressa-se:

"O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo", isto é, foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.” (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 85).

Vemos que a confissão do Catolicismo declara ser autentica unicamente a interpretação dada pelo magistério da igreja, isto é, somente o corpo de sacerdotes católicos podem interpretar fielmente a Palavra de Deus. A detenção das verdades Bíblicas compete somente ao Catolicismo. Ou seja, exclusivamente a esta igreja.

No decorrer dos parágrafos, o Catecismo vai declarando a mesma doutrina, apenas com uma descrição diferente dos fatos, veja:

"É dever dos exegetas esforçar-se, dentro dessas diretrizes, por entender e expor com maior aprofundamento o sentido da Sagrada Escritura, a fim de que, por seu trabalho como que preparatório, amadureça o julgamento da Igreja. Pois todas estas coisas que concernem à maneira de interpretar a Escritura estão sujeitas, em última instância, ao juízo da Igreja, que exerce o divino ministério e mandato do guardar e interpretar a Palavra de Deus" (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 119).

Esse parágrafo é extremamente interessante. Percebe-se que os exegetas (intérpretes), devem se encorajar a profunda interpretação Bíblica (Hermenêutica), somente ao pleno juízo da Igreja Romana. Explicando: a hermenêutica católica não está baseada nos princípios de que “A Bíblia explica-se a si mesma”, mas sim que a igreja dá a interpretação que lhe convém.

Será que a Bíblia concorda com a posição tomada pelas autoridades da Igreja Católica? O Catecismo está de acordo com a Sagrada Escritura: Vejamos se as fontes de autoridades proferidas pela Igreja Católica (Tradição, Bíblia e Magistério) forem a Palavra de Deus, elas então sem dúvida vão concordar entre si, não caindo em princípios de contradição, pois a Bíblia declara:

Pois Deus não é um Deus de desordem, mas de paz.” (1 Coríntios 14:33a – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Como veremos, infelizmente, o Catolicismo se equivoca em sua confissão de fé e em suas doutrinas, discordando diretamente do que a Palavra de Deus diz. Iahweh (Iavé/Jeová) enfaticamente professa na Escritura que sua Palavra é totalizada, perfeita e imutável: 

As palavras de Iahweh são palavras sinceras, prata pura saindo da terra, sete vezes refinada. Sim, Iahweh, tu nos guardarás, livrando-nos desta geração para sempre: por toda parte vagueiam os ímpios, quando a vileza é exaltada entre os filhos de Adão.” (Salmos 12 [11] versos 7-9. – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

O princípio da tua palavra é a verdade, tuas normas são justiça para sempre.” (Salmos 119 [118] verso 160. – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade.” (João 17:17 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

A Bíblia possui inúmeros versículos requerendo autoridade de si mesma, pus apenas essas três passagens acima, para que fique exemplificada a importância que a Escritura dá a si Própria, e a advertência enfática para quem adiciona algo juntamente as Santas Letras como fonte de autoridade. Analisemos:
A todo o que ouve as palavras da profecia deste livro eu declaro: “Se alguém lhes fizer algum acréscimo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro”. E se alguém tirar algo das palavras do livro desta profecia, Deus lhe tirará também a sua parte da árvore da Vida e da Cidade santa, que estão descritas neste livro!" (Apocalipse 22:18-19 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Certamente um dos maiores vultos neotestamentários, o apóstolo Paulo – que em verdade possui mais autoridade do que qualquer outro teólogo ou apologista vivo - nos deixou registrado em seus ensinos, como devemos nos portar para com aqueles que contrariam a Palavra de Deus redigida, ensinando com isso doutrinas que as contradizem. Notemos:

Rogo-vos, entretanto, irmãos, que estejais alerta contra os provocadores de dissensões e escândalos contrários ao ensinamento que recebestes. Evitai-os. Porque estes tais não servem a Cristo, nosso Senhor, mas ao próprio ventre, e com palavras melífluas e lisonjeiras seduzem os corações dos inocentes.” (Romanos 16:17-18 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Observamos que a admoestação de Paulo é enfática, e sua conclusão também. Que os que ensinam contrariedades as Escrituras não servem a Cristo, mas sim a si próprio  (ou até mesmo outra pessoa/instituição, mas não a Deus). Por que Paulo ensina dessa forma? Simplesmente porque os ensinos falsos geram males grandessíssimos na vida de quem os segue. Vejamos outro texto paulino:

Entretanto, se alguém — ainda que nós mesmos ou um anjo do céu — vos anunciar um evangelho diferente do que vos anunciamos, seja anátema. Como já vô-lo dissemos, volto a dizê-lo agora: se alguém vos anunciar um evangelho diferente do que recebestes, seja anátema.” (Gálatas 1:8-9 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Na Antiga Aliança, especificamente no Livro de Provérbios, o seu escritor apresenta a própria  e duríssima advertência a quaisquer pessoas que se ouse a modificar a Palavra de Deus redigida:

A Palavra de Deus é comprovada, ele é um escudo para quem nele se abriga: Não acrescentes nada às suas palavras, porque te responderá, e passarás por mentiroso”. (Provérbios 30:5-6 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O Senhor Deus pronuncia que sua Palavra foi escrita uma única vez, a fim de conservar-se genuinamente para ensinamento perpétuo. Seguem algumas passagens para meditação e estudo que comprovam fielmente a minha declaração:

A lei de Iahweh é perfeita, faz a vida voltar; o testemunho de Iahweh é firme, torna sábio o simples.” (Salmos 19 [18] verso 8 Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Iahweh, tua palavra é para sempre, ela está firmada no céu; tua verdade continua, de geração em geração: fixaste a terra, e ela permanece. (Salmos 119 [118] versos 89-90 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

seca-se a erva, murcha-se a flor, mas a palavra do nosso Deus subsiste para sempre" (Isaías 40:8 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém). 

Essa mesma passagem é confirmada no Novo Testamento pelo apóstolo Pedro...

"Com efeito, toda a carne é como erva e toda a sua glória como a flor da erva. Secou-se a erva e a sua flor caiu; mas a Palavra do Senhor permanece para sempre. Ora, é esta a Palavra que vos foi anunciada no evangelho.”  (1 Pedro 1:24-25 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

É demonstrado de forma explícita que a Palavra de Deus é perfeita! Algo tão primoroso que não necessita de mudança, não se retira e nem se acrescenta coisa nenhuma! 

E sobre a declaração de exclusividade na interpretação Bíblica? O Catolicismo apregoa em seu Catecismo que unicamente o Magistério da Igreja Católica (encabeçado pelo Papa) pode interpretar de forma fidedigna a Palavra escrita. Contudo a Bíblia descompassa essa declaração:

"Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de uma interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas homens, impelidos pelo Espírito Santo, falaram da parte de Deus.” (2 Pedro 1:20-21 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Qual é a vontade de Deus para nossas vidas? Que cheguemos ao conhecimento de sua Verdade revelada (João 8:32)! E de onde ele quer que os cristãos obtenham sua doutrina? Do Papa? Do Cardeal? Do Primaz? Do Arcebispo? Do Bispo? Do Padre? Abro um parêntese importantíssimo (Isso serve de exemplo para toda igreja que se diz cristã. Que põe sua autoridade final na palavra dos “Apóstolos” modernos, Bispo/Bispa, Pastores, Missionários, etc.). Ou, O Senhor Deus quer que conheçamos a Bíblia, sua Palavra fiel? Vejamos a resposta:

"Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como certo; tu sabes de quem o aprendeste. Desde a tua infância conheces as sagradas Letras; elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para educar na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito, qualificado para toda boa obra." (2 Timóteo 3:14-17 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O apóstolo Paulo dá um ensinamento muito especifico ao seu amado discípulo Timóteo. Ele não faz referência qualquer à Tradição da Igreja ou ao Magistério. Muito pelo contrário. Timóteo é exortado para basear sua vida espiritual na verdade constante da Palavra de Deus, a qual já era conhecida. Podemos ver no texto que ele é ensinado a permanecer (e não mudar) os ensinos que lhe foram passados. Não há “nova revelação” extrabíblica por intermédio de Concílios e Catecismos. A Bíblia não ampara tal ensinamento da Igreja Católica.

Igualmente a está passagem há muitos outros versos que permitem deixar o assunto bem esclarecido. Deus nunca abonou a alguma pessoa prelado para acrescentar ou modificar Sua Santa Palavra. A Escritura é perfeitamente completa, precisamente como o Espírito Santo compeliu aos seus escritores, pois Ele mesmo era o Autor.

Para quem estuda a Bíblia, ou a lê com o intuito de realizar a vontade de Deus, é formulada então a seguinte questão de reflexão que devemos  responder sem hesitação: O Senhor Deus, cuja Palavra não muda, contraviria todas estas Escrituras somente para dar ao Papa e à Igreja Católica o direito único de interpretação da Sua Palavra, embora Ele tenha dito que jamais o perpetraria? Creio que não!

No Ministério terreno do Senhor Jesus Cristo existiu um grupo dentro do judaísmo conhecido como Fariseus. Os Fariseus eram, juntamente com os Saduceus, Essênios e Zelotes, os grandes grupos das seitas judaicas. Este grupo (Fariseus) exercia grande influencia entre o povo judeu. Insistiam no cumprimento rigoroso das traições rabínicas. Esta palavra “fariseus” significa etimologicamente “separados”, porque não somente se separavam dos outros povos, mas também dos próprios israelitas. Observavam práticas minuciosas extrabíblicas, tais como: cerimônias e rituais; lavagens e purificações, etc., porém esqueciam-se do que estava redigido na própria Palavra, não agindo assim com o espírito das Escrituras. Os Fariseus foram repreendidos duramente pelo Senhor Jesus, e muitíssimas vezes. Vejamos tais reprovações:

"Ora, os fariseus e alguns escribas vindos de Jerusalém se reúnem em volta dele. Vendo que alguns dos seus discípulos comiam os pães com mãos impuras, isto é, sem lavá-las — os fariseus, com efeito, e todos os judeus, conforme a tradição dos antigos, não comem sem lavar o braço até o cotovelo, e, ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se aspergir, e muitos outros costumes que observam por tradição: lavagem de copos, de jarros, de vasos de metal — os fariseus e os escribas o interrogaram: “Por que não se comportam os teus discípulos segundo a tradição dos antigos, mas comem o pão com mãos impuras”?” Ele, então, disse-lhes: “Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me prestam culto; as doutrinas que ensinam são mandamentos humanos. Abandonais o mandamento de Deus, apegando-vos à tradição dos homens”. E dizia-lhes: “Sabeis muito bem desprezar o mandamento de Deus para observar a vossa tradição”. (Marcos 7:1-9 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O Senhor Jesus indignou-se explicitamente porquanto os Fariseus incluíam  as suas tradições acima até mesmo da Palavra de Deus, pois Ele (Jesus) compreende que a Palavra de Deus transporta o povo para vida eterna, enquanto as conhecimentos humanos conduz o povo ao permanente extermínio. Ainda que esses líderes satisfizessem todas as regras da sua religião, Jesus os reprovou. E ainda declarou que haveria algo de acontecer com eles sobre abonar a Escritura em nome da Tradição:

"Serpentes! Raça de víboras! Como haveis de escapar ao julgamento da geena?" (Mateus 23:33 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém). 

A palavra grega “Geena” é um termo derivado do hebraico ”Gê-Hinnom” que por sua vez significa “Vale de Hinom” onde eram sacrificadas crianças para o deus pagão Moloque. Esse vale foi no Antigo Testamento, profanado por um rei de Israel chamado Josias. Tornou-se um símbolo de pecado e de suplicio eterno. Esta é a conotação com que Jesus Cristo descreve a condenação dos Fariseus.

Em outra parte da Bíblia, os Fariseus questionaram novamente Jesus acerca da Tradição que não era cumprida por seus discípulos. Vejamos o texto: 

Nesse tempo, chegaram-se a Jesus fariseus e escribas vindos de Jerusalém e disseram: ‘Por que os teus discípulos violam a tradição dos antigos? Pois que não lavam as mãos quando comem". (Mateus 15:1-2 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém) 

Jesus Cristo sabiamente respondeu-lhes com uma pergunta: "Ele respondeu-lhes: ‘E vós, por que violais o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?" (Mateus 15:3 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

O Senhor Jesus ininterruptamente assentou a Escritura Bíblica por cima de quaisquer tradições humanas. Vejamos mais um texto Bíblico:

"Jesus respondeu-lhes: "Estais enganados, desconhecendo as Escrituras e o poder de Deus.” (Mateus 22:29 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

A Palavra inflexível de Deus sempre no Ministério de Cristo  exerceu a autoridade final, nunca as tradições dos homens. E, juntamente com Cristo, confirmaram-se os ensinos dos Apóstolos. Paulo adverte a Igreja de Colossos (Uma grande cidade da Frigia na Ásia Menor) com o seguinte ensinamento:

"Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas especulações da "filosofia", segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do mundo, e não segundo Cristo." (Colossenses 2:8 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Todos os cristãos do Novo Testamento tinham ciência de que a Bíblia possuía autoridade suprema. Em uma de suas viagens missionárias, Paulo juntamente com seu companheiro Silas, chegou a um lugar chamado Bereia (Cidade da Macedônia cerca de 80 km da Tessalônica), e pregou o Evangelho para o povo de lá. Eles por sua vez examinaram os próprios ensinos diretos do apóstolo, para com isso detectar se andavam em conformidade com a Escritura. Vejamos:

"Os irmãos logo fizeram Paulo e Silas partirem de noite para Bereia. Eles, tendo ali chegado, dirigiram-se à sinagoga dos judeus. Ora, estes eram mais nobres que os de Tessalônica. Pois acolheram a Palavra com toda a prontidão, perscrutando cada dia as Escrituras para ver se as coisas eram mesmo assim.” (Atos 17:11 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Com o intuito de determinar se o que eles tinham escutado de Paulo e Silas era realmente a Verdade de Deus, aquelas pessoas foram à autoridade final e suprema, as Escrituras escritas. O Próprio Senhor Jesus ressalta sobre Sua Palavra Santa:

"Quem tem meus mandamentos e os observa é que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai. Eu o amarei e me manifestarei a ele". "Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada. Quem não me ama não guarda minhas palavras; e a palavra que ouvis não é minha, mas do Pai que me enviou." (João 14:21-24 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Analisemos novamente estas outras palavras do apóstolo Paulo:

"Por esta razão é que sem cessar agradecemos a Deus por terdes acolhido a sua Palavra, que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é, Palavra de Deus que está produzindo efeito em vós, os fiéis." (1 Tessalonicenses 2:13 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Quando Paulo pregava a Palavra de Deus para aquele povo, não era a doutrina da Igreja Católica, não era a doutrina do Catecismo (Tradição) que no decorrer dos Concílios e anos vão tomando outros moldes, contrariando a própria Bíblia. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Escritura diz que Deus é imutável: “Sim, eu, Iahweh, não mudei, mas vós filhos de Jacó, não cessastes!" (Malaquias 3:6 – Bíblia de Jerusalém). Por que? Simplesmente porque Ele é perfeito. 

Seu Filho Jesus não muda: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje; ele o será para a eternidade!” (Hebreus 13:8 – Bíblia de Jerusalém). Por quê? Simplesmente porque Ele é perfeito. 

Por que, então, iria a perfeita Palavra de Deus mudar? Fica a pergunta: Em quem devemos crer como suprema autoridade? Na Palavra escrita de Deus ou nos ensinos dos Concílios e tradições da Igreja Católica?

Essa decisão é crítica, porque a maior parte dos ensinos católicos estão transversalmente em oposição a todas as doutrinas Bíblicas. Deveremos escolher de que lado ficar: Da Palavra de Deus ou das tradições dos homens.

Por meio desta pequena dissertação acima, percebemos que a Escritura Bíblica é verdadeiramente a Palavra de Deus (Ela mesma reivindica tal autoridade única), posto supremo na vida do cristão e, excepcionalmente ela, deve ser seguida fielmente. Por isso o Senhor Jesus vociferou: 

Santifica-os na verdade; a tua palavra é verdade.” (João 17:17 – Bíblia de Jerusalém)

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

MATEUS 1:25 E A VIRGINDADE PERPÉTUA DE MARIA



Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus.” (Mateus 1:25 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O Catolicismo Romano ensina em seus dogmas que Maria conservou sua virgindade depois do nascimento de Cristo. Em seu Catecismo, no parágrafo 510 é dito: 

Maria ‘permaneceu Virgem concebendo seu Filho, Virgem ao dá-lo à luz, Virgem ao carregá-lo, Virgem ao alimentá-lo de seu seio, Virgem sempre’: com todo o seu ser Ela é "a Serva do Senhor" (Lc 1,38).” (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 510)

Essa é uma questão crucial para o Romanismo, tendo em vista que Maria ocupa uma posição mui singular nessa religião. Será que a mãe do Senhor Jesus continuou virgem depois de seu nascimento? A resposta dessa pergunta tem um efeito astronômico sobre uma gama de doutrinas desta igreja. Enquanto que na teologia Reformada, não existe diferença se Maria permaneceu virgem ou não;  na teologia católica romana, é o contrário. Isso é importantíssimo, pois eleva a Maria a um grau tão altivo que se assemelha a uma semi-divindade (ou divindade feminina); pois esta recebe títulos como Co-Mediadora, Rainha do Céu, Mãe da Igreja, etc. Assim sendo, faz-se imprescindível examinar a assunto de sua virgindade perpétua na expectativa de proporcionar uma posição Bíblica ortodoxa.

O vocábulo "virgem" no Novo Testamento é "παρθενος" (parthenos),  e aparece 14 vezes. Entretanto, a palavra não aparece em Mateus 1:25. Em vez disso, o grego literal diz: “και ουκ εγινωσκεν αυτην εως ου ετεκεν τον υιον... ". Que literalmente significa: “E não conhecia a ela até que deu a luz um filho...” (http://biblia.gospelprime.com.br/receptus/mateus/1/)

Tal expressão é bastante simples. José não teve relações sexuais com Maria até o nascimento de Cristo; e que após o nascimento de Jesus, eles tiveram relações. A palavra "até" é uma preposição e significa "até aquele momento", "antes de um determinado momento", "na medida em que".

VEJAMOS ALGUNS EXEMPLOS DO USO DESSA PREPOSIÇÃO:

1) Até o momento de: "Eu comi até que fiquei saciado." Isso significa que eu comi e parei quando eu estava cheio, satisfeito, fartado. Significa especificamente  uma mudança de ação. Uma sinonímia de expressão: "Eu comi até o momento que fiquei  saciado."

2) Antes de um determinado momento: "Você não pode ir até que tenha pagado a multa." Esta expressão apregoa uma condição necessária antes de uma mudança ocorrer. Podemos dizer: "Você não pode ir antes de pagar a multa."

3) Na medida em que: “Eu trabalhei até que me encontrei exausto.” Isso significa um efeito ou condição resultados do ato de trabalhar. "Eu trabalhei até o ponto que me cansei."

Na passagem de Mateus. 1:25 é dito que José manteve Maria no estado virginal até o nascimento de Jesus. A implicação é que ela deixou de ser virgem após o nascimento de Cristo, quando consumado o casamento, mas os apologistas católicos romanos típicos não podem aceitar esta explicação. Em vez disso, eles dizem que ela permaneceu virgem e citam versículos onde "até" não significa uma mudança de condição. Por exemplo:

Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés". (salmos 110 (111):1 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés.” (1 Coríntios. 15:25 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém): 

“...recomendo-te que guardes o mandamento sem mácula, irrepreensível, até a aparição de nosso Senhor Jesus Cristo,” (1 Timóteo. 6:14 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria), 

Em cada verso, a palavra "até" não designa a cessação da condição mencionada. No Salmo 110(111):1, e, em 1º Coríntios. 15:25 Jesus ainda reina depois de ter todos os inimigos debaixo de seus pés. Já na passagem de 1º Timóteo. 6:14, todos ainda guardam os mandamentos de Deus, depois da volta de Jesus. Por isso, os católicos romanos dizem que Maria manteve sua virgindade, porque a palavra "até" não exige que ela deixou de ser uma virgem. 

É extremamente fácil provar meu raciocínio na aplicação dos versos que mostram uma mudança de estado. Vejamos: 

"Depois subiu novamente, partiu o pão e comeu; e discorreu por muito tempo ainda, até o amanhecer. Então partiu." (Atos 20:11 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Quando amanheceu, coligaram-se alguns judeus e juraram com imprecações não comer nem beber nada, enquanto* não matassem Paulo.” (Atos 23:12 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria) 

*Muitas traduções expressam: “até que matassem Paulo”.

Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que tenhamos assinalado os servos de nosso Deus em suas frontes.” (Apocalipse 7:3 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)

Cada versículo acima apresenta a palavra "até" designando uma mudança de condição / ação. Em Atos 20:11 Paulo falou com eles até o amanhecer e depois partiu. Em Atos 23:12 os homens maus não comeriam ou beberiam até que Paulo fosse morto. Em Apocalipse 7: 3  É proibido o dano à terra, ao mar e árvores até que os servos fossem selados.

Portanto, podemos ver que a palavra "até" é usado em diferentes contextos; e não é apropriado olhar para outras passagens, ver como a palavra é usada, e transferi-la para o modo que lhe apraz. Como então devemos achar o significado dessa palavra em Mateus 1:25? O que devemos fazer?

O DETERMINANTE DE UMA PALAVRA É O SEU CONTEXTO

O conjunto é a fato mais importante que devemos apreciar ao determinar os agrupamentos de palavras. No contexto de Mateus 1:25 temos:

"Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho e o chamarão com o nome de Emanuel, o que traduzido significa: "Deus está conosco". José, ao despertar do sono, agiu conforme o Anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu em casa sua mulher. Mas não a conheceu até o dia em que ela deu à luz um filho. E ele o chamou com o nome de Jesus.” (Mateus 1:22-25 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O contexto da passagem mostra a concepção de um filho a virgem. A virgindade na concepção é a importância do tema, e o evangelista Mateus nos mostra claramente que Jesus não era o resultado de relações sexuais normais entre marido e mulher. É por isso que a virgindade de Maria é citada na profecia do Antigo Testamento e seu cumprimento Neotestamentário. A questão da virgindade é elementar, já que Jesus é o Filho de Deus, o Messias Divino. Mateus então narra que José manteve Maria em condições virginais “até que ela deu à luz um filho”. A leitura mais natural conclui-se que ele a manteve virgem até que Jesus nasceu; ou seja, ela não permaneceu virgem depois do nascimento de Jesus, pois a mudança de estado em “até que” indica que tiveram relações sexuais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Obviamente isso não extingue a questão; mas há na Bíblia muitos indícios de que Maria foi mãe de mais filhos. Filhos de concepção natural. Mesmo que Martinho Lutero e João Calvino afirmassem a virgindade perpétua de Maria, isso não quer dizer que as Escrituras afirmem. Esse não era o tema que ocasionou a Reforma, e, portanto teria de ser debatido posteriormente com o intuito de afastar mais ainda as doutrinas extra-Bíblicas do Romanismo. Querendo ou não os primeiros reformadores e a igreja católica romana estão errados. A importância dos ensinos reformados era justamente a posição da Bíblia como única regra de fé, de encontramos o Senhor, o Salvador Bíblico mediante a fé e a justificação pela graça de Deus. Mas se ou não Martinho Lutero, João Calvino, católicos romanos, ou qualquer outra pessoa acreditou, ou acreditam que Maria manteve sua virgindade perpétua, isso não tem qualquer influência sobre a sã doutrina. Devemos sempre apelar para a primazia das Escrituras e não as opiniões dos teólogos.

Diante dos fatos de que o Senhor Jesus teve meio-irmãos, os romanistas costumam levantar algumas objeções, que por sua vez são muito prematuras. Alegam que enquanto Jesus estava na cruz, por que ele não entregou sua mãe, Maria, para um de seus irmãos, mas ao invés disso escolheu João? Se ele tinha irmãos e /ou irmãs, Jesus não deveria ter entregado a um deles? Por que ele não fez? Assim, concluem os romanistas, isso significa que ele não teve irmãos e irmãs. Sustentam tal pensamento com um texto isolado, como é de praxe da instituição:

“Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.” .(João 19:26-27 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)  

Analisando a Bíblia dentro dos acontecimentos temos respostas claras. Mas vejamos essa profecia Messiânica nos Salmos:

Tornei-me um estranho para meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe.” (Salmos 68:9 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)

Essa profecia nos mostra claramente o que aconteceu no dia da crucificação do Senhor Jesus, e prova que uma consideração Bíblica profunda é incrivelmente profícua. Tal oráculo teve seu cumprimento no Novo Testamento, como tudo que é dito sobre a Pessoa do Senhor Jesus na Antiga Aliança:

“Quando os seus o souberam, saíram para o reter; pois diziam: "Ele está fora de si." (Marcos 3:21 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)

Com efeito, nem mesmo os seus irmãos acreditavam nele.” (João 7:5 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)

Os irmãos de Jesus tiveram muita resistência para crer nele. Ao confiar Maria a João, Nosso Senhor estava fornecendo o melhor para Maria. Ele não a confiou aos seus irmãos porque até determinado momento eram incrédulos. Jesus estava  se separando de sua mãe, quebrando os laços terrestres (2 Coríntios 5:16) e coube a um discípulo do sexo masculino, o apóstolo João, que estava presente e, que, aparentemente, mostrou o maior amor por ele por estar lá, possivelmente, arriscando sua própria vida em fazê-lo. Afinal, todo mundo tinha o abandonado: 

"Disse-lhes então Jesus: Esta noite serei para todos vós uma ocasião de queda; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersadas." (Mateus. 26:31 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria )  

"Mas tudo isto aconteceu porque era necessário que se cumprissem os oráculos dos profetas. Então os discípulos o abandonaram e fugiram..." (Mateus. 26:56 – Versão Católica: Bíblia Ave Maria)

O Senhor Jesus deu a João um lugar maior do que ele deu a Pedro a respeito de Maria. E, afastou qualquer ideia de supremacia de sua genitora (ou qualquer outro). Vemos em Atos que Maria era uma pessoa comum, uma irmã em Cristo. Seu lugar entre os irmãos não possuía altivez. Ela tomou seu lugar entre  os crentes (não acima deles) em uma reunião de oração. Por isso devemos nos basear no que diz a Bíblia e não ir além disso:

 "Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele." (Atos 1:14 – Versão Católica – Bíblia Ave Maria).

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A SALVAÇÃO NA BÍBLIA


Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus: não vem das obras, para que ninguém se encha de orgulho. Pois somos criaturas dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras que Deus já antes tinha preparado para que nelas andássemos.” (Efésios 2:8-10 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

De antemão adianto que a Salvação efetuada pelo Senhor Deus é um processo de eleição dentro de sua livre e soberana vontade. Ao prosseguir com a explanação preceituada desta doutrina Bíblica importantíssima, digo-vos que, ela (a doutrina) é extremamente profunda, mas valiosíssima. Quero apresentar aos menos familiarizados a origem Bíblica da mesma. 

Como muitos cristãos hoje não sabem nada sobre esse assunto - pois nunca participaram de um estudo ou nunca leram nada teologicamente sistematizado – e, os que conhecem, conhecem como outros já ouviram e leram apenas contaminações e reproduções errôneas dela, é certamente essencial que façamos uma analise para embasarmos sua veracidade, demonstrando presentemente a sua raiz na Palavra de Deus. 

Um estudo aprofundado da Bíblia e da Teologia Reformada nos mostra que há provas fidedignas de que a Doutrina da Eleição não é uma invenção teológica de Agostinho, Lutero ou Calvino, ou de qualquer outro homem, mas é algo claramente revelado na Sagrada Escritura, a saber, que Deus, antes da fundação do mundo, fez diferença entre as Suas criaturas, escolhendo algumas pessoas para serem os objetos especiais de Seu favor.

Os teólogos que estudam tal assunto costumam ordenar o processo salvífico de Deus da seguinte maneira:

1) Eleição (Deus escolhe as pessoas a serem salvas)
2) O chamado do evangelho (proclamar a mensagem do evangelho)
3) Regeneração (nascido de novo)
4) Conversão (Fé e arrependimento) 
5) Justificação (posição legal correta)
6) Adoção (tornando-se membros da família de Deus)
7) Santificação (conduta correta na vida)
8) Perseverança (permanecendo como cristãos)
9) Morte (para ir viver com o Senhor)
10) Glorificação (recebendo um corpo de ressurreição)

A cronologia de acontecimentos em que Deus aplica a salvação é conhecida como a ordem da salvação, e às vezes nos referimos a ele pela frase em latim, “ordo salutis”.

Para um entendimento profícuo, devemos lidar com a matéria num contexto geral, e, nos ocupar com os fatos. Analisemos as seguintes informações: No Éden por que Deus aceitou a oferta de Abel e rejeitou a de Caim? Por que Deus escolheu Abrão? Será que Deus tem um povo eleito? Agora, esta questão deve ser proposta para o próprio Deus, pois só Ele é competente para responder. É, por conseguinte, para a Sua Santa Palavra que devemos nos voltar se quisermos conhecer Sua resposta a estas perguntas. Contudo, antes disso, carecemos francamente pedir a Deus que nos conceda um espírito obediente, submisso a Bíblia para que possamos com humildade receber o testemunho Divino. Ninguém pode conhecer as coisas de Deus até que o próprio Deus as professe.

Vamos a analise Bíblica. Em relação à Caim e Abel a Bíblia diz: “Passado o tempo, Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh; Abel, por sua vez, também ofereceu as primícias e a gordura de seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda, e Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido.” (Gênesis 4:3-5 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Ao lermos os primeiros capítulos de Gênesis, podemos notar que não havia um estabelecimento de qual produto seriam as ofertas a Deus. Não existia uma norma definida sobre o culto de oblações e seu procedimento. Deus apenas aceitou a oferta de Abel, que certamente teve seu coração tocado pelo Espírito Santo,  e ofereceu as primícias do seu rebanho. O sangue e a gordura em expiação. (O texto fala apenas da gordura mas só é possível retirar a gordura com o derramamento de sangue)

Com relação a Abrão, Deus apenas o escolheu sem fazer critério algum entre seus familiares. O elegeu apenas por sua livre e soberana vontade, independente de obras. E sobre a geração do patriarca, Josué, em sua oração nos diz que todos eram voltados para idolatria antes de atravessarem o Jordão: 

Agora, pois, temei a Iahweh e servi-o com integridade e com sinceridade; lançai fora os deuses aos quais serviram os vossos pais do outro lado do Rio e no Egito, e servi a Iahweh.” (Josué 23:14 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)     

Ao que tange em consideração à nação de Israel, a Bíblia diz: “Pois tu és um povo consagrado a Iahweh teu Deus; foi a ti que Iahweh teu Deus escolheu para que pertenças a ele como seu povo próprio, dentre todos os povos que existem sobre a face da terra.” (Deuteronômio 7:6 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Pois Iahweh escolheu Jacó para si, fez de Israel seu bem próprio.” (Salmos 135(134):4 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém); 

E tu, Israel, meu servo, Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo, tu, a quem tomei desde os confins da terra, a quem chamei desde os seus recantos mais remotos e te disse: "Tu és o meu servo, eu te escolhi, não te rejeitei". (Isaías 41:8-9 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém). 

Os depoimentos Bíblicos supracitados nos mostram sem sombras de dúvidas que o povo de Israel foi o eleito e favorecido povo de Deus. Não levantarei a questão do porquê ou como Deus os escolheu, ou para que eles foram escolhidos, mas apenas esclareço que foi pela vontade soberana do Senhor de tudo e todos; entretanto enfatizarei exclusivamente o fato em si mesmo. O Senhor Deus possuía uma nação eleita nos tempos da Antiga Aliança.

Como todo Antigo Testamento deve ser interpretado à luz do Novo Testamento - sendo esta a primeira regra da hermenêutica Bíblica -, veremos o ensino da eleição bem esclarecido nas páginas neotestamentárias.  Podemos definir a Eleição Divina da seguinte forma:

A eleição é um ato de Deus antes da criação em que ele escolhe algumas pessoas para serem salvas, não previsível com base no mérito em si, mas porque esse é seu desejo soberano.” (Wayne Gruden)

Diversos passagens neotestamentárias  mostram, com muita clareza, que o Senhor Deus preordenou  os que seriam salvos. Um exemplo explícito é mostrado quando Paulo e Barnabé principiaram a pregação do Evangelho aos gentios em Antioquia da Pisídia. O autor de Atos, Lucas, escreve:  

"Ouvindo isto, os gentios se alegravam e glorificavam a palavra do Senhor, e todos os que eram destinados à vida eterna abraçaram a fé. " (Atos 13:48 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

É expressivo que Lucas refere-se sobre a eleição como um fato decisivo. Perceba  que na pregação do genuíno  Evangelho é uma  atitude  normal que, os eleitos, quando  o ouviram, abraçaram a fé. E por que muitos acreditam? Simplesmente, porque, como diz o texto: “estavam destinados para a vida eterna."

O apóstolo Paulo ensinava a eleição constantemente em seus escritos. Uma consideração perceptiva de seus ensinos demonstram claramente que a Eleição era fundamental em todo seu pensamento: 

E nós sabemos que Deus coopera em tudo para o bem daqueles que o amam, daqueles que são chamados segundo o seu desígnio. Porque os que de antemão ele conheceu, esses também predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de ser ele o primogênito entre muitos irmãos. E os que predestinou, também os chamou; e os que chamou, também os justificou, e os que justificou, também os glorificou.” (Romanos 8:28-30 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

No capítulo nove da Epístola aos Romanos, Paulo, disserta sobre o fato de Deus escolher, livre e soberanamente, Jacó em vez de Esaú. O apóstolo atenta para o caso que não foi por alguma coisa que Jacó e Esaú tinham feito, todavia tão-somente para que Deus continuasse o propósito de sua eleição.

...quando ainda não haviam nascido, e nada tinham feito de bem ou de mal, — a fim de que ficasse firme a liberdade da escolha de Deus, dependendo não das obras, mas daquele que chama — foi-lhe dito: O maior servirá ao menor, conforme está escrito: Amei a Jacó e aborreci a Esaú. ". (Romanos 9:11-13 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

É conveniente considerar no Novo Testamento  a observação que, ainda no beneficiado povo de Deus, Israel, o Senhor fez uma distinção. Existia uma eleição dentro de uma eleição; ou, em outras palavras, Deus teve um povo especial dentre a Sua própria nação eleita. 

E não é que a palavra de Deus tenha falhado, pois nem todos os que descendem de Israel são Israel, como nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos, mas de Isaac sairá à descendência que terá teu nome. Isto é, não são os filhos da carne que são filhos de Deus, mas são os filhos da promessa que são tidos como descendentes.” (Romanos 9:6-8 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém). 

Não repudiou Deus o seu povo que de antemão conhecera. Ou não sabeis o que diz a Escritura a propósito de Elias, como ele interpela a Deus contra Israel? 'Senhor, eles mataram teus profetas, arrasaram teus altares; só fiquei eu e querem tirar-me a vida.' Mas o que lhe responde o oráculo divino? 'Reservei para mim sete mil homens que não dobraram o joelho a Baal.' Assim também no tempo atual constituiu-se um resto segundo a eleição da graça. E se é por graça, não é pelas obras; do contrário, a graça não é mais graça. Que concluir? Aquilo a que tanto aspira, Israel não conseguiu: conseguiram-no, porém, os escolhidos. E os demais ficaram endurecidos.” (Romanos 11:2-7 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Isto nos remete ao fato de que alguns de Israel foram salvos, porém outros não. Paulo mostra novamente que havia dois grupos caracterizados dentro do povo de Israel: o eleito que tinha obtido a salvação procurada, enquanto os "eleitos" foram "endurecidos" Este é o verdadeiro sentido do texto. Portanto, é bem evidente, mesmo no Israel visível, a nação eleita para deleitar-se de prerrogativas externas, Deus havia feito uma eleição: um Israel espiritual, os salvos objetos de Seu amor. E, esses eleitos, objetos da graça e do amor de Deus, foram eleitos não depois de crerem nisso, mas Paulo discursa explicitamente sobre a eleição de Deus dos crentes antes da criação do mundo no início da Carta aos Efésios.

"Nele, ele nos escolheu antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor. Ele nos predestinou para sermos seus filhos adotivos por Jesus Cristo, conforme o beneplácito da sua vontade, para louvor e glória da sua graça, com a qual ele nos agraciou no Amado. "(Efésios 1:4-6 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Paulo escreveu esse texto diretamente aos cristãos, explicando  que Deus "nos escolheu" em Cristo, aludindo  aos crédulos  universalmente. Semelhantemente, alguns versos mais adiante, diz:

"Nele, predestinados pelo propósito daquele que tudo opera segundo o conselho da sua vontade, fomos feitos sua herança, a fim de servirmos para o seu louvor e glória, nós, os que antes esperávamos em Cristo. " (Efésios 1:11-12 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Esse termo, a saber, "predestinados", reflete o mesmo princípio de seleção Divina, e, aparece clara e visivelmente na instrução do Novo Testamento. Também é revelado que Deus tem um povo peculiar, Seus próprios filhos amados, seus súditos, possuidores do favor especial.  Instruindo aos Tessalonicenses, Paulo diz: 

"Sabemos, irmãos amados de Deus, que sois do número dos eleitos — porque o nosso evangelho vos foi pregado não somente com palavras, mas com grande eficácia no Espírito Santo e com toda a convicção. Assim, sabeis como temos andado no meio de vós para o vosso bem." (1 Tessalonicenses 1:4-5 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Nós, porém, sempre agradecemos a Deus por vós, irmãos queridos do Senhor, porque Deus vos escolheu desde o princípio para serdes salvos mediante a santificação do Espírito e a fé na verdade, e por meio do nosso evangelho vos chamou a tomar parte na glória de nosso Senhor Jesus Cristo."(2 Tessalonicenses 2:13-14 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

O apóstolo Paulo está descrevendo que os tessalonicenses acreditaram no Evangelho, quando ele pregou simplesmente porque foram eleitos para isso. O Evangelho não chegou apenas com palavras, mas o poder do Espírito Santo capacitou os eleitos a crerem.

 As palavras “predestinado”, “eleito”, e seus derivados, ou seu sinônimo “escolhido” juntamente com seus equivalentes, ocorre nas Páginas Sagradas consideravelmente mais de cem vezes. Num contexto teológico, esse termo pertence ao vocabulário Divino. Tem seu significado e implicação entendidos em sua plenitude somente por Deus. Ele transmite a nós humanos somente uma ideia definida. 

O ensinamento Bíblico é transparente com relação a obra salvífica de Deus. Quando a Bíblia disserta sobre a salvação, nega explicitamente que essa é proveniente as nossas obras, mas aponta sim para o propósito de Deus e da sua graça na eternidade passada. Veja o que Paulo escreveu a Timóteo: 

"Não te envergonhes, pois, de dar testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro; pelo contrário, participa do meu sofrimento pelo evangelho, confiando no poder de Deus, que nos salvou e nos chamou com uma vocação santa, não em virtude de nossas obras, mas em virtude do seu próprio desígnio e graça. Essa graça, que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos... "(2 Timóteo 1:8-9 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Ao escrever sua Epístola Universal aos fieis das igrejas na Ásia Menor, o apóstolo Pedro disserta sobre os mesmos princípios de eleição: 

"Pedro, apóstolo de Jesus Cristo, aos estrangeiros da Dispersão: do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai, pela santificação do Espírito, para obedecer a Jesus Cristo e participar da bênção da aspersão do seu sangue. Graça e paz vos sejam concedidas abundantemente!" (1 Pedro 1:1-2 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém) 

Logo adiante ele reforça o pensamento sobre a doutrina da eleição dizendo:  "Mas vós sois uma raça eleita, um sacerdócio real, uma nação santa, o povo de sua particular propriedade, a fim de que proclameis as excelências daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa..." (1 Pedro 2:9 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém).

Muitos contrários a Doutrina da Eleição, tomam a palavra “presciência” citada por Pedro e a tratam num contexto isolado, dizendo que a eleição é um conhecimento antecipado que Deus teve dos que iriam aceitar o Evangelho, ou seja, Deus em sua Onisciência olhou para o futuro e simplesmente viu os que se tornariam cristãos. Sinto contradizê-los, mas não é isso! Tal pensamento é extremamente errado! Deus não olhou para o futuro e viu os que aceitariam a Cristo. Ele determinou antes mesmo dos tais aceitarem, pois desta forma podemos declarar firmemente que Deus é o Senhor e Autor da salvação.   

Tomemos esse texto apocalíptico: “Deram-lhe permissão para guerrear contra os santos e vencê-los; e foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação. Adoraram-na, então, todos os habitantes da terra cujo nome não está escrito desde a fundação do mundo no livro da vida do Cordeiro imolado.” (Apocalipse 13:7-8 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

O apóstolo João em sua visão no Livro Apocalipse, viu que aqueles que cometiam a abominação de idolatria, e renderam-se a tal, não tinham seus nomes escritos no Livro da Vida do Senhor Jesus, que por sua vez foi escrito desde a fundação do mundo. Ou seja, os eleitos foram criados para serem salvos. 

Não podemos ter concordância textual nas palavras do próprio Senhor Jesus, com respeito a salvação se a Doutrina da Eleição não for considerada: 

E se aqueles dias não fossem abreviados, nenhuma vida se salvaria. Mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados.”  (Mateus 24:22)

Pois hão de surgir falsos Cristos e falsos profetas, que apresentarão grandes sinais e prodígios de modo a enganar, se possível, até mesmo os eleitos.” (Mateus 24:24)

Ele enviará os seus anjos que, ao som da grande trombeta, reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma extremidade até a outra extremidade do céu.” (Mateus 24:31)  

E Deus não faria justiça a seus eleitos que clamam a ele dia e noite, mesmo que os faça esperar?” (Lucas: 18:7)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A eleição é uma doutrina Bíblica; porém, é um segredo Divino, um ato soberano da vontade de Deus na eternidade passada. O Senhor reserva para si o conhecimento dos que são eleitos ou não; mas, do mesmo modo nos outorga a pregação do Evangelho não para que permanecesse em segredo para sempre. No tempo oportuno, Deus, apresenta deleite de manifestar abertamente Seus conselhos eternos. Isto Ele fez em graus variados, desde o início da história humana.

A Doutrina da Eleição nos diz que somos  cristãos porque Deus na eternidade passada decidiu derramar seu amor sobre nós. Mas por que Ele decidiu fazer? Não por nenhuma bondade que havia em mim, mas simplesmente porque ele queria me amar. Nenhuma outra razão.

Pensar dessa forma ajuda-nos a ser humildes diante de Deus. Faz-nos perceber que não temos o direito à graça divina. Nossa salvação é única e inteiramente da graça de Deus. Nossa resposta única e apropriada é dar-lhe eterno louvor.

Por outro lado, Deus, não prometeu salvação para toda humanidade. Desta forma teria uma placa no inferno com os dizeres: “há vagas!!!”. De toda a forma o que compete aos cristãos é a perseverança na crença em que a salvação vem unicamente de Deus; que sou salvo; que fui feito cristão para uma vida de santificação; e, e que devo praticar boas-obras, pois de antemão, Deus, as preparou para que os salvos "andassem nelas" (Efésios 2:10)

Os crentes em Cristos podem então regozijar-se nessa Palavra bendita que soa na Escritura proferida pelo profeta Isaías. Que nossa Salvação foi antecipadamente preparada unicamente por Deus e não pode desfazer-se.

Eu, eu sou Iahweh, e fora de mim não há nenhum Salvador. Fui eu que revelei, que salvei e falei, nenhum outro Deus houve jamais entre vós. Vós sois as minhas testemunhas — oráculo de Iahweh —, eu sou Deus, desde toda a eternidade, eu o sou; não há ninguém que possa livrar da minha mão; quando faço, quem poderá desfazer?” (Isaías 43:11-13 – Versão Católica: A Bíblia de Jerusalém)

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O HOMEM E O ANIMAL IRRACIONAL SÃO A MESMA COISA?


E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente. “ (Gênesis 2:7 - Almeida Revista e Corrigida)

O texto de Gênesis sobre o relato da criação do homem é assaz formoso! Mostra como Deus usando algo material, um elemento químico, forma sua criatura do “pó da terra”. A figura de um oleiro representa a atividade de Deus em moldar a cada pessoa, em especial, não como o restante da criação (somente pela fala), mas, em esculpi-la com a sensibilidade de um artista esboçando amor e destreza.

O patriarca Jó entendeu bem a obra desenvolvida por Deus a nosso favor, e o extremo carinho e amabilidade que o Senhor nos formou, expressando o ato criador de forma magnífica:  

…De fato, foram as tuas mãos que me teceram e me deram forma. E será possível que agora, essas mesmas mãos, se voltam contra mim a fim de me destruir? Ó Deus, lembra-te de que do barro me moldaste! E agora simplesmente desejas triturar-me e devolver-me ao pó?  Não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me revestiste, de ossos e nervos me teceste. Tens me concedido vida e misericórdia, e a tua providência tem conservado o meu espírito.” (Jó 10:8-12)

Há uma corrente religiosa, um grupo pseudocristão, que acredita ser o homem apenas a alma em seu estado físico, algo meramente material que é idêntico ao animal irracional (difere somente em ser racional), e essa alma se extingue com o fim da vida. Esse pensamento é conhecido como aniquilacionismo.

Infelizmente tal grupo toma textos belíssimos como este de Gênesis 2:7 e isola totalmente o verso, aplicando apenas um significado a palavra “alma”. Um intérprete dedicado ao estudo da hermenêutica e guiado pelo Espírito Santo saberá que, uma palavra em si, não denota todo o significado de um texto. O sentido etimológico é importante, porém uma mesma palavra pode ter uma gama de sentidos. Ela pode ser aplicada em uma semântica diferente que sempre será determinada pelos contextos.

A palavra “alma” do hebraico נפש (naphash), e do grego ψυχη (psyché), é empregada nas Escrituras em vários sentidos derivados. No texto supracitado “alma vivente” significa pessoa. Pessoa diferente do animal irracional; pessoa que possui atributos de inteligência, sentimentos, volição e sensibilidade.

Não podemos tomar a expressão “alma vivente” com relação ao homem e entender que tenha o mesmo significado da aplicação aos animais em textos como estes:

E disse Deus: Produzam as águas abundantemente repteis de almas viventes; e voem as aves sobre a face da expansão dos céus.” (Gênesis 1:20)

E disse Deus: Produza a terra alma vivente conforme a sua espécie: gado, e répteis e bestas-feras da terra conforme a sua espécie. E assim foi.” (Gênesis 1:24)

  “E todo animal da terra, e a toda ave dos céus, e a todo réptil da terra em que há alma vivente...” (Gênesis 1:30ª)

Os animais possuem instinto e sensibilidade, contudo não são pessoas, não possuem intelecto (os animais sabem, mas não sabem que sabem). Quando alma se refere a eles, a tradução em seu equivalente contextual discrimina excelentemente bem, aplicando “seres viventes”, como fez a Almeida Atualizada.

Em sentido próprio o homem possui uma parte imaterial “soprada por Deus” que é a figura de linguagem representando a atividade criadora do Espírito: 

Envias o teu fôlego, e são criados; e assim renovas a face da terra.“ (Salmos 104:30)

Veio sobre mim a mão do SENHOR, e ele me fez sair no Espírito do SENHOR, e me pôs no meio de um vale que estava cheio de ossos. E me fez passar em volta deles; e eis que eram mui numerosos sobre a face do vale, e eis que estavam sequíssimos. E me disse: Filho do homem, porventura viverão estes ossos? E eu disse: Senhor DEUS, tu o sabes. Então me disse: Profetiza sobre estes ossos, e dize-lhes: Ossos secos, ouvi a palavra do Senhor. Assim diz o Senhor DEUS a estes ossos: Eis que farei entrar em vós o espírito, e vivereis. E porei nervos sobre vós e farei crescer carne sobre vós, e sobre vós estenderei pele, e porei em vós o espírito, e vivereis, e sabereis que eu sou o Senhor. Então profetizei como se me deu ordem. E houve um ruído, enquanto eu profetizava; e eis que se fez um rebuliço, e os ossos se achegaram, cada osso ao seu osso. E olhei, e eis que vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles por cima; mas não havia neles espírito. E ele me disse: Profetiza ao espírito, profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor DEUS: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam. E profetizei como ele me deu ordem; então o espírito entrou neles, e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo." (Ezequiel 37:1-10)

E porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos porei na vossa terra; e sabereis que eu, o SENHOR, disse isto, e o fiz, diz o SENHOR” (Ezequiel 37:14) 

O hebraico traduzido como “alma vivente” em referência ao homem tem muitas peculiaridades. Pode se observar que o texto não diz “um ser vivente se tornou homem” — o homem não é formado de vida preexistente nem se limita a vida física. O homem é diferenciado dos animais por levar em si a imagem de Deus:

E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra." (Gênesis 1:26) 

Seres humanos em todo o seu ser — corpo e alma — adequadamente e fielmente representam Deus, possuem vida proveniente dele e consequentemente uma intimidade em potencial com ele, e servem na terra como seus administradores. A imagem é passada adiante a cada ser humano, dando dignidade a cada pessoa, e este mostra sua autoridade sobre os animais ao lhe dar nomes.

O ser humano se caracteriza do restante da criação. Deus não soprou o espírito nos demais. Deus como ser espiritual, também nos concedeu uma vida imaterial como a dele, e isso é refletido quando morremos, pois nossa alma sai do corpo material:

E aconteceu que, saindo-se-lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni; mas seu pai chamou-lhe Benjamim.” (Gênesis 35:18)

E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” (Mateus 10:28-29)

E digo-vos, amigos meus: Não temais os que matam o corpo e, depois, não têm mais que fazer. Mas eu vos mostrarei a quem deveis temer; temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos digo, a esse temei.” (Lucas 12:4-5)

Grande porção das escrituras examinadas em seu contexto nos ensina isso. Que a alma é reunida ao corpo após a ressurreição:

Então se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-te que a alma deste menino torne a entrar nele. E o Senhor ouviu a voz de Elias; e a alma do menino tornou a entrar nele, e reviveu.” (1 Reis 17:21-22)

O estado intermediário no pós-morte, essa parte imaterial do ser humano não dorme, não deixa de existir e nem é aniquilada, mas, se for cristã, fica consciente no céu com o Senhor Jesus:

Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (Porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.” (2 Coríntios 5:6-8)

Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. Mas, se o viver na carne me der fruto da minha obra, não sei então o que deva escolher. Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.” (Filipenses 1:21-23)

Se a pessoa for ímpia (não salva) ela terá outro destino:

E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; e morreu também o rico, e foi sepultado. E no inferno, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe Abraão, e Lázaro no seu seio. E, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro somente males; e agora este é consolado e tu atormentado.” (Lucas 16:22-25)

O ensinamentos do Senhor Jesus e dos seus apóstolos a  Igreja Primitiva sempre foi de uma vida imaterial no repousar do corpo, ou seja, morte física. Ensinar e crer contrário a isso é constituir-se em heterodoxia. Esse ensinamento não é cristão! Textos isolados, interpretações etimológicas vazias somente usando um sentido na palavra não discriminará a aplicação correta dos termos que possuem uma amplitude de significados.

E sobre os animais, eles possuem alma no sentido de serem "seres viventes" e falecendo, findou-se. São coordenados pela Sabedoria Infinita de Deus, que introduz neles o instinto. Eles são diferentes da coroa da criação, o homem. Não há relatos de animais na Cidade Celeste, na Jerusalém do alto.

Os cristãos genuínos, falecidos no corpo, dormindo materialmente, vivem com o Senhor na cidade celeste e aguardam sua vinda gloriosa para com isso tornar-se num estado como o próprio Cristo é: tendo sua alma unida novamente com seu corpo, transformada perfeitamente pelo próprio Deus Filho, restaurando assim a sua criação:

Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas." (Filipenses 3:20-21)

Em Cristo

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

RESPOSTA AOS OPOSITORES DO DEUS BÍBLICO (ELISEU, "OS MENINOS" E AS URSAS)


"Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do Senhor; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos." (2 Reis 2:23-24)

Muitos céticos e opositores da Bíblia veem nesse texto um alicerce para sustentar que, o Deus judaico-cristão, é intrinsecamente mau, injusto, impiedoso e intolerante. Bem... o que eu posso colocar de antemão é que, tal texto texto é interessantíssimo, e, possui alguns pontos a serem analisados. O termo "meninos" da passagem é a tradução da palavra hebraica נְעָרִים (neârim), usado para servos, pessoas jovens ou em idade de casamento. Os jovens não eram crianças pequenas e inocentes. Eram jovens maldosos, comparáveis às gangues de rua dos dias de hoje. Daí, a vida do profeta foi exposta ao perigo pelo grupo, que era numeroso, pela natureza do seu pecado e pelo óbvio desrespeito que eles demonstraram à autoridade de Eliseu.

O ministério de Eliseu é caracterizado por sua compaixão para com os arrependidos e severidade para os incrédulos. Nada existe de espetacular e assombroso nesse incidente, em nada diminuindo o caráter amoroso de Deus. Eliseu era um profeta e falava com autoridade Divina e um instrumento de Deus na terra TANTO PARA JUSTIÇA QUANTO PARA BÊNÇÃO!!!

A passagem enfatiza a oposição contínua sofrida por um profeta autêntico em Betel, o principal centro pagão de adoração a animais. A principal dificuldade recai sobre a "maldição no nome do Senhor" (verso 24). Na doutrina deuteronômica de justiça por retribuição:

"E retribui no rosto qualquer dos que o odeiam, fazendo-o perecer; não será tardio ao que o odeia; em seu rosto lho pagará."
(Deuteronômio 7:10) 

Esta era a exigência contra todo aquele que zombasse de um profeta, um ato que equivalia a diminuir a importância do próprio Deus. A ofensa dos jovens não foi assim tão pequena, porque os jovens trataram Eliseu com desprezo. Como o profeta era a boca com a qual Deus falava ao seu povo, o próprio Deus estava sendo maldosamente insultado na pessoa do seu profeta.

Então o que podemos aprender de tal episódio não era o fato de Eliseu ter amaldiçoado ou não. Mas que Deus tomou a vida deles, pois somente Ele poderia ter dirigido as ursas naquela hora, fazer com que os rapazes se paralisassem de temor e assim serem atacados. Deus tem o poder sobre toda a criação - tanto em doar a vida, como tirá-la:

"Mas, se avisares ao ímpio, e ele não se converter da sua impiedade e do seu mau caminho, ele morrerá na sua iniquidade, mas tu livraste a tua alma." (Ezequiel 3:19)

"A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai levará a iniquidade do filho. A justiça do justo ficará sobre ele e a impiedade do ímpio cairá sobre ele." (Ezequiel 18:20)

É evidente que, por terem zombado desse homem de Deus, aqueles jovens revelaram sua verdadeira atitude para com o próprio Deus. DEUS É AMOR MAS TAMBÉM É JUSTIÇA. Foi claramente um ato de Deus em juízo sobre aquela ímpia gangue. Um desprezo assim para com o Senhor é punível com a morte.

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

DISCREPÂNCIA IRÔNICA NA VULGATA LATINA


Olhando Aarão e todos os filhos de Israel para Moisés, eis que a pele de seu rosto resplandecia; e tinham medo de aproximar-se dele.” (Êxodo 34:30 – Bíblia de Jerusalém)


O texto acima se refere ao episódio que, Moisés, após o êxodo, subiu a montanha com duas tábuas de pedras lavradas, e, retornou ao povo com a glória de seu rosto resplandecente devido a Aliança feita com Deus.

O brilhante artista renascentista, Michelangelo Buonarroti, em uma de suas principais obras, esculpiu o mediador da Antiga Aliança, por encomenda do Papa Júlio II, em 1505. A obra baseou-se no episódio narrado em Êxodo 34:30-35. O Moisés de Michelangelo possui uma característica muito peculiar, um par de chifres como mostrado na figura de sua escultura que se encontra na igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma. Mas por que os chifres?

Esta história antiga contém duas ocorrências linguísticas incomuns. O verso supracitado e o sequente:

...e os filhos de Israel viam resplandecer o rosto de Moisés. Depois Moisés colocava o véu sobre a face, até que entrasse para falar com ele.” (Êxodo 34:35 – Bíblia de Jerusalém)

 O verbo “קרן” (qaran) significa “brilhar”, “emitir raios” ou “resplandecer” aqui na Bíblia de Jerusalém foi traduzido como “resplandecer”. É uma excelente tradução. Entretanto infelizmente, porque um substantivo cognato tem sua grafia homônima que significa “קרן” (qeren) que se traduz por “chifre”, “trombeta” ou pode significar figuradamente “força” - fazendo alusão aos fortes animais que possuem chifres e usam para a defesa - a Vulgata Latina (Bíblia oficial do Catolicismo) traduziu o termo erradamente como “chifres”, e assim foi que Moisés ganhou um par de chifres na obra do artista medieval. Vejamos:

videntes autem Aaron et filii Israël “cornutam Mosi faciem” timuerunt prope accedere” (Liber Exodus 34: 30 [http://www.bibliacatolica.com.br/vulgata-latina/liber-exodus/34/#.VHMr-NLF_kU])

qui videbant faciem egredientis “Mosi esse cornutam” sed operiebat rursus ille faciem suam si quando loquebatur ad eos” (Liber Êxodus 34:35 [http://www.bibliacatolica.com.br/vulgata-latina/liber-exodus/34/#.VHMr-NLF_kU])

As expressões respectivas “cornutam Mosi faciem” (chifres na face de Moisés [34:30]) e “Mosi esse cornutam” (Moisés e seu chifre [34:35]) são o motivo. É até irônico, porém nos deixa um ensinamento.

Esse pequeno exemplo do “cornutam” (chifres) mostra que transtorno uma tradução errada pode causar. Na hora de vertermos um termo sempre devemos analisar seu contexto. E qual é contexto da passagem? Que Moisés subiu ao monte para falar face-a-face com Deus, recebeu o sinal da Aliança em tábuas de pedra, estava emanando o poder do Senhor. Obviamente não era de “chifres” que o texto original estava se referindo.

Hoje o hebraico possui os sinais massoréticos que auxiliam na tradução. Estes são pontos colocados em cima, ao lado ou em baixo das letras hebraicas, fazendo às vezes das vogais, dando uma diferença fonética no termo. Desta forma ficaria mais fácil identificar a palavra “קרן” (qaran/qeren).

Porém mesmo palavras com seu significado claro, podem possuir um sentido diferente nas passagens da Escritura. É o caso de expressões como pedra, gerar, alma, primogênito, sal, luz, batismo, pão, água, dormir, morrer, etc. 

É preciso usar recursos linguísticos e conhecer os gêneros literários. Muitas expressões na Bíblia ganham outras atribuições devido ao seu gênero, seja literal, figurado, irônico, hiperbólico, metafórico, metonímico (subentendido), paradoxal etc. Tudo dependerá do contexto. E, é por causa da analise do contexto que muitas seitas e heresias surgem.

Nos nossos dias nenhuma versão católica moderna grafa o texto desta forma. A Reforma Protestante com sua excelente análise hermenêutico-exegética, e suas traduções para idiomas vernáculos, contribuiu com isso eficazmente promovendo assim versões condignas da Bíblia. 

Porém há ainda muitos termos (exemplos acima) que são traduzidos onde desprezam-se  toda a conjuntura, não levando em conta uma interpretação histórico-gramatical, a finalidade real do escrito, os contextos paralelos, para com isso obter uma salutar interpretação. E ignorando isso se pode sustentar o que quiser usando a Bíblia, filosofando e arranjando malabarismos teológicos em prol de amparar suas tendências. Já nos tempos dos apóstolos esse procedimento acontecia, e, Pedro fala sobre tais homens (grupos), e o fim que lhes aguarda. Vejamos: 

Considerai a longanimidade de nosso Senhor como a nossa salvação, conforme também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada. Isto mesmo faz ele em todas as suas cartas, ao falar nelas desse tema. É verdade que em suas cartas se encontram alguns pontos difíceis de entender, que os ignorantes e vacilantes torcem, como fazem com as demais Escrituras, para a sua própria perdição.” (2 Pedro 3:15-16 – Bíblia de Jerusalém)

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)