terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A NATUREZA HUMANA: CORPO, ALMA/ESPÍRITO OU SOMENTE UMA ALMA?


E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Gênesis 2:7 – Versão: Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

Está se tornando muito comum algumas posições pessoais no meio evangélico sobre o que é o homem: sua composição, origem e destino. E, muitos ditos “cristãos” estão deixando a posição ortodoxa que os Credos de suas denominações apregoam, e, abraçando fielmente doutrinas heterodoxas. Estão baseados em uma hermenêutica inclusiva, tendo ensinamentos e escritos de seitas, juntamente com suas opiniões particulares e interpretando com isso a Bíblia.

Estão principalmente subordinando o Novo Testamento a textos veterotestamentários que não lançam uma luz geral na antropologia - que a Escritura dentro de um todo demonstra. Antes de abordarem o texto Bíblico com as lentes neotestamentárias, estes usam costumes culturais; posições histórico-filosóficas; e, a alegação de que seitas possuem um ponto comum com o cristianismo bíblico, para com isso defender o sono da alma, o aniquilacionismo e o chamado monismo.  

Queria tomar o texto da criação do homem como um primeiro exemplo. A interpretação natural (mais simples) dele nos mostra que, Deus, ao criar o ser humano do pó da terra (parte material) soprou nele o “fôlego da vida”, então aquele passou a ser uma “alma vivente”. Essa linguagem quer dizer que o homem passou a ser um ser vivo. Ele agora é formado de uma parte material, e outra imaterial. Esse é o estado natural do seres humanos: uma unidade constituída de corpo e alma/espírito.

A Teologia Reformada entende que, o ser humano, é um ser dicotômico. Um ser formado de uma parte material e outra imaterial (embora estas fossem criadas por Deus para serem naturalmente unidades num estado perfeito). Isso fica explícito em muitos textos Bíblicos, e se sistematizarmos esse ensinamento, veremos o quão é inconcebível o monismo (ponto de vista que homem é apenas um elemento, e que seu corpo é a pessoa, ou seja, o homem é uma alma), que leva imediatamente ao sono da alma (ponto de vista que apregoa que, o homem, ao morrer entra num estado de sono geral); e o aniquilacionismo (a consequência final do homem depois do juízo, pois a alma não é uma entidade imortal).

Sempre é profícuo frisar que, desde o início, a ênfase da Bíblia está na unidade geral. Do homem criado por Deus naturalmente completo. Quando Deus formou o homem "soprou em suas narinas o fôlego da vida, e o homem foi feito alma vivente" (Gênesis 2:7b). Nesta ocasião encontramos Adão como uma pessoa unificada de corpo e alma vivendo e trabalhando juntos. Este estado harmonioso e unificado original do homem ocorrerá quando Cristo voltar e resgatar integralmente nossos corpos e nossas almas para viver com ele para sempre:

Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque convém que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade, e que isto que é mortal se revista da imortalidade. E, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então cumprir-se-á a palavra que está escrita: Tragada foi a morte na vitória.” (1 Coríntios 15:51-54)

Analisaremos agora como a Bíblia usa os termos “alma” e “espírito” de maneira alternada, muitas vezes não fazendo distinção destes. Percebemos facilmente que a posição monista (e consecutivamente o sono da alma e o aniquilacionismo) usa as palavras “alma” e “espírito” de maneira arbitrária, aplicando o significado que lhe apraz.

Ao pesquisamos a aplicação dos vocábulos traduzidos por "alma" (Hebraico: nefesh e Grego: Psique) e "espírito" (Hebraico: Ruach e Grego: Pneuma) perceberemos muitas vezes a indistinção dos mesmos. Um exemplo disso é observado facilmente nesses textos:

Agora a minha alma está perturbada; e que direi eu? Pai, salva-me desta hora; mas para isto vim a esta hora.” (João 12:27)

Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair.” (João 13:21)

Vemos nos dois contextos que, Jesus, expressa-se indistintamente em sua agonia usando a palavra “alma” e “espírito” como sinônimos. A tradução da Sociedade Bíblica Britânica, ainda se assemelha mais a Almeida quando expressa em João:

Dito isto, perturbou-se Jesus em espírito...” (João 13:21a)

Semelhantemente, Vemos Maria, a mãe do Salvador, expressar-se da seguinte forma:

Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.” (Lucas 1:46-47)

É latente um estilo de paralelismo hebraico muito típico da poesia nessa cultura. Esse cântico repete a mesma ideia em ambos os versos, ou seja, Maria glorifica e se alegra no Senhor na sua “alma” e no seu “espírito” usando os dois termos como sede de emoções. A aplicação equivalente dos termos esclarece por que as pessoas que morreram e foram  para o céu ou o inferno são chamadas de “espíritos”:

À universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados.” (Hebreus 12:23)

No qual também foi, e pregou aos espíritos em prisão...” (1 Pedro 3:19)

E, havendo aberto o quinto selo, vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus e por amor do testemunho que deram.” (Apocalipse 6:9)

E vi tronos; e assentaram-se sobre eles, e foi-lhes dado o poder de julgar; e vi as almas daqueles que foram degolados pelo testemunho de Jesus, e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta, nem a sua imagem, e não receberam o sinal em suas testas nem em suas mãos; e viveram, e reinaram com Cristo durante mil anos.” (Apocalipse 20:4)

É interessante dissertarmos exegeticamente sobre esse verso de Apocalipse 20:4, pois há algumas traduções (como a Nova Versão Internacional) que grafam: “Eles ressuscitaram e reinaram com Cristo durante mil anos.” Com isso os defensores do monismo, alegam que, os crentes de Apocalipse 6:9 não viviam no céu num estado intermediário, mas foram ressuscitados, por isso estavam lá.

A palavra grega traduzida por “ressuscitaram” é ἔζησαν (ezesan) e significa VIVER, VIVERAM, VIVEM, etc. Essa mesma palavra está no verso 5:

"O restante dos mortos não voltou a VIVER (ἔζησαν - ezesan) até se completarem os mil anos.) Esta é a primeira ressurreição." (Apocalipse 20:5)

Essa palavra possui várias variantes, porém todas elas significam VIVER, VIDA, VIVERAM. etc., exemplos:
 
"Eles me conhecem há muito tempo e podem testemunhar, se quiserem, que, como fariseu, VIVI (ἔζησα - ezesa) de acordo com a seita mais severa da nossa religião." (Atos 26:5)

Em Lucas há outra variante: "Mas nós tínhamos que comemorar e alegrar-nos, porque este seu irmão estava morto e voltou à VIDA (ἔζησεν - ezesén), estava perdido e foi achado.” (Lucas 15:32)

Traduzir Apocalipse 20:4 por “ressuscitar”, “ressuscitou”, “ressurreição”, etc., e, amparar a doutrina monista nessa variante de tradução é um erro. Por isso um teólogo deve conhecer o idioma original, e distinguir os termos no grego e suas aplicações. Embora o texto dê a entender que essas pessoas ressuscitaram, João, as viu num estado intermediário. O autor inspirado expressa-se: “vi debaixo do altar as almas dos que foram mortos por amor da palavra de Deus...” (Apocalipse 6:9). Estes crentes estavam no céu! O contexto do verso onze diz:

E foram dadas a cada um compridas vestes brancas e foi-lhes dito que repousassem ainda um pouco de tempo, até que também se completasse o número de seus conservos e seus irmãos, que haviam de ser mortos como eles foram.” (Apocalipse 6:11)

Examinando esses textos dentro do assunto tratado, fica nítido que, as almas estão na glória. Os fiéis recebem vestes brancas, representando retidão, santidade e alegria. Estar no céu é bem-aventurança. É glorificação. Não plena ainda porque não houve a ressurreição, mas incomparavelmente melhor do que estar no corpo:

Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. (Filipenses 1:23)

Estes crentes estão em um estado intermediário de descansando, não dormindo. Esperam até chegar o dia em que se completará o número dos mártires. Os cristãos estão no céu repousando de seus esfalfamentos terrenos. Lá não tem mais dor, nem pranto nem luto. O dia está determinado. O número está determinado. Até que esse número não tenha sido completado na terra, o dia do juízo não pode chegar.

Com isso chegamos a plena conclusão que, “as almas debaixo do altar” eram cristãos em seu estado intermediário, pois, em suas peregrinações terrenas “foram mortos por amor da palavra de Deus”, e, repousam ainda um pouco de tempo.” Aguardando a ressurreição.

A PALAVRA GREGA PARA RESSUSCITAR

Como eu disse acima, embora o texto de Apocalipse 20:4 possa dar a entender uma ressurreição, ela se passa num período posterior ao que João viu as “as almas debaixo do altar” (Apocalipse 6:9). Amparar-se nessa lacuna temporal para defender o monismo e seus derivados é andar na contramão do Evangelho.

Porém, se tomarmos o significado da palavra em seu original, perceberemos que no mesmo contexto de Apocalipse, a palavra grega para “ressuscitar” (ἀναστάσει - anastásei) e suas variantes, surge logo a frente:

"Felizes e santos os que participam da primeira RESSURREIÇÃO (ἀναστάσει - anastásei)! A segunda morte não tem poder sobre eles; serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele durante mil anos." (Apocalipse 20:6)

"Pois bem, na RESSURREIÇÃO (ἀναστάσει - anastásei), de qual dos sete ela será esposa, visto que todos foram casados com ela? " (Mateus 22:28)


Só em João 11:24 temos duas ocorrências: "Marta respondeu: "Eu sei que ele vai RESSUSCITAR (ἀναστήσεται - anastésetai) na RESSURREIÇÃO (ἀναστάσει - anastásei), no último dia." (João 11:24)

Isso nos mostra que, muitas das vezes, nós devemos verificar o ORIGINAL e sua aplicação examinando os contextos. Não é usar a tradução sem saber se o termo está bem traduzido ou não, e com isso criar uma doutrina.

A BÍBLIA DEMONSTRA QUE TANTO A ALMA E O ESPÍRITO SAEM DO CORPO

Um caso clássico desse fato está narrado na morte da matriarca Raquel. Quando esta faleceu, é dito na Bíblia:

E aconteceu que, saindo-se-lhe a alma (porque morreu), chamou-lhe Benoni; mas seu pai chamou-lhe Benjamim (Gênesis 35:18)

O que o texto está nos mostrando naturalmente aqui? Que ao expirar-se a vida física da matriarca, a alma (parte imaterial), saiu do corpo de Raquel. O texto não diz o lugar para onde a alma se dirigiu; porém, é claro que a alma saiu, foi para fora do corpo. Fazendo o caminho inverso, vemos Elias orando para que a alma torne ao corpo em um dos seus milagres:

Então se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor, e disse: Ó Senhor meu Deus, rogo-te que a alma deste menino torne a entrar nele. (1 Reis 17:21)

Vemos literalmente o profeta fazendo uma distinção entre o corpo e a alma. O corpo do menino estava ali em sua frente, deitado, morto. Mas, sua alma estava em outro lugar, então, Elias clama ao Senhor Deus para que a parte imaterial da criança una-se novamente ao material.

Embora sejam textos que não tem uma luz total sobre o assunto, não é a hermenêutica veterotestamentária que deve regular o Novo Testamento, mas sim o inverso. Todos os cristãos devem interpretar o Antigo Testamento a luz do  Novo. E, é exatamente no advento neotestamentário que vemos a luz maior dessa revelação.

Vemos em suas páginas que, a alma/espírito, é claramente uma entidade imaterial e imortal que SAI do corpo. Deus diz ao rico insensato:

Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?” (Lucas 12:20)

Por outro lado, às vezes à morte é vista como um retorno do espírito para Deus. Assim Davi pode orar desta maneira:

Nas tuas mãos encomendo o meu espírito; tu me redimiste, Senhor Deus da verdade.” (Salmos 31:5)

E o Senhor Jesus confirmando a veracidade da vida imaterial, clama: "E, clamando Jesus com grande voz, disse: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. E, havendo dito isto, expirou. (Lucas 23:46)

Sobre a morte, vemos Salomão dando-nos um prelúdio da revelação neotestamentária: E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu.” (Eclesiastes 12:7)

O apostolo João registrou que, o Senhor Jesus, ao morrer teve sua parte imaterial entregue a Deus: E, quando Jesus tomou o vinagre, disse: Está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.” (João 19:30)

Semelhantemente o diácono Estevão ao ser martirizado: E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. (Atos 7:59)

Analisando os textos acima, vemos que tanto a alma como o espírito são usados como sinônimos para apresentar a vida fora do corpo. O monismo é obrigado a isolar versículos que tomam estas palavras alegoricamente, para com isso defender sua tese. Tese esta que nenhuma igreja verdadeiramente cristã apregoa em seus Credos.

A BÍBLIA DIZ QUE O HOMEM É TANTO CORPO E ALMA E CORPO E ESPÍRITO

O Senhor Jesus ao referir-se a alma faz referencia clara  à parte do ser humano que existe após a morte: E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo.” (Mateus 10:28)

 Logicamente o texto não significa "pessoa" ou "vida" não há sentido falar daqueles que "matam o corpo mas não podem matar a pessoa" ou "matar o corpo, mas não matar a vida", Notamos explicitamente que ao menos há uma exterioridade, um aspecto pessoal além do corpo. E, este ente continuará vivendo após a morte física. Nem ao menos da margem para uma separação entre corpo, alma e espírito. O Senhor Jesus coloca "alma e corpo" falando da pessoa inteira. Ele não especifica o "espírito" como um componente separado. A palavra "alma" denota a parte do homem que não é física.

Nesse mesmo conjuntura, o Novo Testamento, dirige-se as vezes sobre o ser humano como “corpo e espírito". O apostolo Paulo ao doutrinar a igreja de Corinto expressa-se: Seja, este tal, entregue a Satanás para destruição da carne, para que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus.(1 Coríntios 5:5)

O apostolo quer que a igreja em Corinto dê a Satanás um irmão perdido para a "destruição de sua natureza pecaminosa, para que seu espírito seja salvo no dia do Senhor". Vemos que Paulo usa a palavra “espírito” para se referir a toda a existência imaterial da pessoa. Em outro texto vemos o irmão do Senhor, Tiago, dizendo:

Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta.” (Tiago 2:26)

Declaradamente o texto se expressa, que, o espírito é toda parte imaterial do homem. Não diz nada sobre o homem somente como uma alma, onde morreu, findou-se. Dorme-se até a ressurreição. Paulo falando do crescimento na santidade pessoal, disserta e aprova um tipo especifico de mulher cristã:

Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido.” (1 Coríntios 7:34)

Ainda mais ele sugere que “corpo e espírito” abrange toda a vida da pessoa. Isso fica mais explícito em outro texto:

Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.” (2 Coríntios 7:1)

Purificar-se da poluição da "carne" significa abster-se das coisas pecaminosas do mundo. Já o "espírito" compreende toda a parte imaterial da nossa existência. Notemos alguns textos:

E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça.” (Romanos 8:10)

Eu, na verdade, ainda que ausente no corpo, mas presente no espírito, já determinei, como se estivesse presente, que o que tal ato praticou...” (1 Coríntios 5:3)

Porque, ainda que esteja ausente quanto ao corpo, contudo, em espírito estou convosco, regozijando-me e vendo a vossa ordem e a firmeza da vossa fé em Cristo.” (Colossenses 2:5)

Como ignorar uma parte imaterial racional diante de tudo que foi exposto acima. Esses textos não fariam nenhum sentido aplicando-se ao pensamento monista.

A BÍBLIA DIZ QUE A ALMA PECA E DIZ QUE O ESPÍRITO PECA

Uma das alegações muito comuns do monismo, é que o espírito é apenas “o sopro de vida”, enquanto a alma é o homem como um todo. Porém contrariando essa ideia, a Bíblia não faz distinção entre “alma consciente” e “espírito consciente”; tanto que, ambos podem pecar contra Deus.

Até mesmo o pensamento tricotômico (que o homem possui três partes: corpo, alma e espírito) fica sem base alguma em sua sustentação. Embora a tricotomia não seja uma heresia – como o monismo e derivados – é um erro diante de tudo que apresentarei. Vejamos:

Purificando as vossas almas pelo Espírito na obediência à verdade, para o amor fraternal, não fingido; amai-vos ardentemente uns aos outros com um coração puro; (1 Pedro 1:22)

Esse texto de Pedro fica implícito que a alma peca. Por quê? Simplesmente porque o apostolo aconselha que os crentes da dispersão “purifiquem suas almas” numa santificação conjunta com o Espírito Santo.

De forma semelhante, a visão de João em apocalipse, nos mostra implicitamente o pecado da alma: E o fruto do desejo da tua alma foi-se de ti; e todas as coisas gostosas e excelentes se foram de ti, e não mais as acharás.” (Apocalipse 18:14)

Alegar que o espírito é mais puro que a alma; ou, que não há parte consciente no espírito, é um pensamento contrário a Bíblia. Paulo encoraja os coríntios dessa forma:

Ora, amados, pois que temos tais promessas, purifiquemo-nos de toda a imundícia da carne e do espírito, aperfeiçoando a santificação no temor de Deus.” (2 Coríntios 7:1)

Obviamente a imundícia que o apostolo se refere é o pecado no espírito. Ou seja uma natureza espiritual entregue as coisas mundanas. Isso implica claramente que pode haver contaminação (ou pecado) em nosso espírito.

Recordando outro texto aos coríntios, nos diz Paulo: Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido.” (1 Coríntios 7:34)

Em um texto do Pentateuco, é dito que Deus endurece o espírito. Será que é possível endurecer algo que não tenha consciência? Algo que é tão-somente um “sopro de vida?”:

Mas Siom, rei de Hesbom, não nos quis deixar passar por sua terra, porquanto o Senhor teu Deus endurecera o seu espírito, e fizera obstinado o seu coração para to dar na tua mão, como hoje se vê.” (Deuteronômio 2:30)

Mais claro ainda, vemos em outros textos o pecado e a obstinação do espírito humano. Cometer pecado é errar conscientemente perante a Lei de Deus e sua moral. Então todos esses textos tratam o espírito como uma entidade cônscia:

E não fossem como seus pais, geração contumaz e rebelde, geração que não regeu o seu coração, e cujo espírito não foi fiel a Deus.” (Salmos 78:8)

A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.” (Provérbios 16:18)

Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas; melhor é o paciente de espírito do que o altivo de espírito.” (Eclesiastes 7:8)

Muito esclarecedor é o texto do profeta Isaías falando que os espíritos errados serão instruídos. Saberão a sã doutrina. Ou seja, possuem concepção do certo e do errado: E os errados de espírito virão a ter entendimento, e os murmuradores aprenderão doutrina.” (Isaías 29:24)

O espírito não é um sopro. Dar apenas um significado a palavra no original sem examinar seus contextos textuais e declarações lógicas de racionalidade de uma parte imaterial, é caminhar de forma anti-Bíblica. De Nabucodonosor é dito que:

Mas quando o seu coração se exaltou, e o seu espírito se endureceu em soberba, foi derrubado do seu trono real, e passou dele a sua glória.” (Daniel 5:20)

Endurecer-se é manter-se rebelde para com os ensinamentos de Deus. Só se mantem rebelde contra algo, se tivermos compreensão do certo e do errado. Dessa forma se expressa o Provérbio:

Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o Senhor pesa o espírito”. (Provérbios 16:2)

O “peso do espirito” implica que é possível que este esteja errado aos olhos de Deus. Outros versos implicam a possibilidade de pecarmos no espírito. Com isso é demonstrado claramente a consciência deste:

Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano.” (Salmos 32:2)

Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito reto. (Salmos 51:10)

Estes textos demonstram que, o espírito, é uma entidade imaterial e consciente que pode cometer pecado ou andar em retidão diante do Senhor.

A BÍBLIA DIZ QUE TUDO QUE A ALMA FAZ O ESPIRITO O FAZ. E, TUDO QUE A ALMA SENTE O ESPÍRITO TAMBÉM O SENTE.

Mais um problema seríssimo em defender o monismo. Não há como definir o espírito como um sopro, e, definir a alma como o homem todo. Basta contextualizarmos os textos que facilmente veremos quão herética a luz da Bíblia é tal pensamento. Nem mesmo crer que a alma é a sede das emoções, e o espírito é a parte que é diretamente relacionada com Deus, é possível de se sustentar analisando a conjuntura geral do ensino.

Realmente é comum a Escritura usar o termo “alma” como a sede das emoções e intelecto. Como originaria do pensamento, sentimentos e decisões. Por outro lado, as atividades de pensar, sentir e decidir as coisas não são apenas decisões da alma. Nosso espírito também pode experimentar emoções, por exemplo:

E, enquanto Paulo os esperava em Atenas, o seu espírito se comovia em si mesmo, vendo a cidade tão entregue à idolatria.” (Atos 17:16)

Tendo Jesus dito isto, turbou-se em espírito, e afirmou, dizendo: Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair.” (João 13:21)

O coração alegre é como o bom remédio, mas o espírito abatido seca até os ossos.” (Provérbios 17:22)

Vemos claramente as emoções de comoção, turbação e abatimento todas provindas do espírito. Não basta fechar os olhos para textos assim e dar apenas um significado ao termo “espirito”, como fazem os adeptos das seitas mortalistas e aniquilacionistas. Um cristão que cai nesse erro, tem muito mais a ver com os sectários do que com os ortodoxos.

Muito mais ampla estão as questões do conhecimento, pensamento e intelecto. O espírito pode realizar todas essas coisas. Por exemplo, Marcos fala de Jesus, dizendo:

E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Por que arrazoais sobre estas coisas em vossos corações? (Marcos 2:8)

O Senhor Jesus conheceu, soube, teve a concepção no seu espírito que os escribas arrazoavam contra ele. No mesmo pensamento de consciência e conhecimento do espirito humano, Paulo demonstra:

“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:16)

Quando o Espírito Santo "testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus" nosso espírito recebe e entende o testemunho (que é certamente a função de saber alguma coisa). Verdadeiramente, o nosso espírito conhece os nossos pensamentos com profundidade. Ou, não haveria lógica Paulo perguntar:

Por que, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” (1 Coríntios 2:11)

Esses versículos dizem que o espírito pensa, sente e arrazoa. Isso nos mostra que "alma" e "espírito" são termos usados ​​para falar geralmente sobre a parte imaterial da pessoa, e é difícil de ver qualquer distinção real no uso de tais termos, ou alguma parte que deles que seja inconsciente.

É bom esclarecer que, quando pensamos ou sentimos as coisas, sem dúvida que há reações no nosso corpo físico. Ele também participa de tudo. Pois, o homem foi concebido por Deus em duas partes, para com isso ser uma unidade. Isto é apenas para enfatizar o que disse no começo das cogitações expostas, que a abordagem geral das Escrituras se concentra principalmente no homem como uma unidade, o corpo físico e a parte não-física devem funcionar como uma unidade.

A BÍBLIA DIZ QUE PARTE IMATERIAL VIVE FORA DO CORPO

Como disse acima, a Bíblia inclui o homem como uma unidade, um fato que é verdadeiro, mas que não deve ser usado para negar que as Escrituras também ensinam que essa natureza unificada do homem consiste em dois elementos diferentes. A percepção que temos um espírito ou alma pertence ao reino do espiritual e invisível. Portanto, nosso conhecimento da existência da alma humana deve basear-se principalmente das Escrituras, onde Deus claramente testifica a existência dessa parte imaterial do nosso ser. O fato de que esta verdade sobre a nossa existência não poder ser estabelecida claramente, além do testemunho da Escritura, não deve fazer-nos privar a afirmá-la.

A Escritura é muito clara em dizer que temos uma alma/espírito. Algo que opera fora do nosso ser físico mesmo que estejamos ainda nesse mundo:

Porque, se eu orar em língua desconhecida, o meu espírito ora bem, mas o meu entendimento fica sem fruto. (1 Coríntios 14:14)

O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.” (Romanos 8:16)

E, ainda quando morremos, continuamos a agir conscientemente e interagindo com Deus além de nosso corpo físico. Jesus disse ao ladrão crucificado:

E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso.” (Lucas 23:43)

Embora seus corpos padecendo na morte física, o Senhor promete ao ladrão uma existência imaterial. Quando Estevão estava morrendo, ele sabia que iria imediatamente para a presença do Senhor. Por isso a Bíblia narra:

E apedrejaram a Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito. (Atos 7:59)

O apostolo Paulo encarou diversas perseguições e perigos sem temer a perda de sua vida. Tal assertiva fica explícita que a esperança dele não estava meramente no efêmero desse mundo. Por isso exclamou:

Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. (Filipenses 1:23)

Na verdade, ele está dizendo que o crente quando morre, vai habitar diretamente com o Senhor indicando a sua confiança de que quando eles morreram fisicamente, seu espírito iria para a presença de Cristo, desfrutando de uma comunhão consciente:

Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor. (2 Coríntios 5:8)

E, diante disso que sabemos factualmente que, Lázaro, quando foi conduzido ao seio de Abraão, gozava de uma glória no pós-morte. Num regozijo espiritual consciente:

“E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão” (Lucas 16:22a)

Contrariamente o rico foi sepultado e levado ao tormento. Esse tormento é consciente e eterno. Daí Jesus exclamar constantemente o sofrimento dos perdidos:

E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 13:42)

E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 13:50)

E os filhos do reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 8:12)

E separá-lo-á, e destinará a sua parte com os hipócritas; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 24:51)

Lançai, pois, o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes. (Mateus 25:30)

Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora. (Lucas 13:28)

Muitos textos retratando o pós-morte confirmam isso. Que o sofrimento no inferno é CONSCIENTE. Isso nos mostra que não há consistência no monismo, sono da alma e aniquilacionismo. Ambos estão distante da doutrina ortodoxa, mesmo não se acreditando em todos, porquanto um pensamento desemboca no outro.

Rômulo Lima

(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

ANO NOVO: OLHAR O PASSADO, AGIR NO PRESENTE, ANTECIPAR O FUTURO.


Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim, Prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.” (Filipenses 3:13-14 – Almeida Corrigida Revisada Fiel)

Hoje estaremos todos nos felicitando. Outra vez entrando nas confraternizações de Ano Novo. Porém é possível ter um feliz Ano Novo? Podemos realmente ter um novo ano ou será ele tão-somente o velho ano com um número diferente? 

Na realidade, o que é novo? Ainda temos as mesmas velhas dívidas, os mesmos problemas, o mesmo emprego, o mesmo mundo, as mesmas pessoas e o mesmo velho “eu”!  Na pintura acima "Uma Alegoria da Prudência," o artista Renascentista do século XVI, o veneziano Ticiano Vecellio, retratou a Prudência como um homem com três cabeças: Uma cabeça era a de um jovem virado para o futuro (o cão); a outra de um homem adulto olhando o presente (o leão); e, a terceira era de um homem idoso contemplando o passado (o velho lobo). 

Na pintura original, sobre as suas cabeças, Ticiano, escreveu uma frase em latim que significa "Do exemplo do passado, o homem do presente age prudentemente para não pôr em perigo o futuro."

Esse é o exemplo que muito antes, Paulo, nos dá na passagem da carta aos Filipenses. O apóstolo pôde "esquecer" o seu passado e antecipar o seu futuro. Isto não quer dizer que a sua memória tenha sido apagada; quer dizer que Paulo estava livre de qualquer culpa, ou orgulho que possa ter sentido nas suas ações passadas, porque Deus o perdoou. Esta atitude o permitiu viver o presente e "prosseguir para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus". Logo, ele tinha uma paixão que o impelia - conhecer melhor a Cristo. Nisto o próprio Paulo prossegue:

Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará. Mas, naquilo a que já chegamos, andemos segundo a mesma regra, e sintamos o mesmo. Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Porque muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora também digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo, Cujo fim é a perdição; cujo Deus é o ventre, e cuja glória é para confusão deles, que só pensam nas coisas terrenas. Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o seu corpo glorioso, segundo o seu eficaz poder de sujeitar também a si todas as coisas.” (Filipenses 3:15-21 – Almeida Corrigida Revisada Fiel)

O que pode tornar este novo ano diferente do último? É deixar que Jesus torne-se Senhor da sua vida. Senhor como Mestre, como Deus, como aquele que dita às normas! "Em Cristo... as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas."

Ao encerrarmos o ano precisamos nos dedicar a este Senhor. Jesus irá nos capacitar para vivermos abundantemente no presente, à medida que recebemos sabedoria do passado para enfrentarmos o futuro com coragem. 

Muitos se vestirão de branco, pularão sete ondas, comerão lentilhas, comerão doze uvas fazendo um pedido para cada uma, carregarão trevos da sorte, notas novas na carteira, etc., porém só aquele que detém o controle total do futuro é Deus em Cristo Jesus. ABSOLUTAMENTE NADA dessas práticas poderá ajuda-los a ter êxito em seus propósitos. Nossa cultura absorveu costumes Indígenas, Católicos Romanos, das religiões Afro, e, como o país é um berço ideológico muito amplo, o ocultismo da Nova Era encontrou imensa guarida. Isso tornou as práticas religiosas do nosso Brasil completamente esotéricas, fetichistas e míticas.

Você no réveillon passado deve ter feito todas essas coisas. Porém tome novos começos nesse ano. Permita-me partilhar com você quatro novos começos: 

Primeiro: Cristo, torna a religião nova porque Ele torna as pessoas novas. Quando vamos a Jesus com total submissão, o eternamente "novo" invade nosso ser e nos refaz o espírito. Ao vivermos com Cristo a cada dia, recebemos nova compreensão de Seu amor e bondade, vislumbres novos daquilo que Ele significa para nós e do que significa viver para Ele.

Segundo: Cristo torna novas as nossas relações sociais. Quando Jesus nos transforma em novas criaturas, vemos as pessoas ao nosso redor de modo diferente. Não as consideramos rivais que precisamos vencer, mas filhos e filhas de Deus a quem podemos amar e anunciar o verdadeiro Evangelho.

Terceiro: Cristo transforma nossos relacionamentos familiares. É absolutamente fantástico o que Jesus pode fazer num lar quando a família dá a Jesus o primeiro lugar em seu coração. Os filhos certamente veem a diferença quando Jesus lidera a família. 
Quarto: Cristo altera nossos relacionamentos comerciais. Ele nos capacita a ser francos e honestos em todas as nossas transações.

É assim que Cristo torna novas as coisas – Ele nos ajuda a vê-las sob o devido foco. Igualmente, confiantes em Cristo, façamos do ano novo um ano de novos começos.

"E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus." (Filipenses 4:7)

Feliz Ano Novo

Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O DIA NATALÍCIO DO SOBERANO (UMA MENSAGEM DE NATAL)



Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” (Lucas 2:11)

Ao noticiar o nascimento de Cristo Jesus, o anjo de Deus, explica que, trouxe as boas novas de alegria. A notícia do Salvador possui muito significado a humanidade e aos povos de todas as nações; mas, ela foi revelada primeiramente ao povo antigo de Deus. O Salvador é um título muito empregado para a Pessoa de Jesus devido a sua Obra, sendo chamado de “Cristo, o Senhor”, isso nos mostra a importância geral de sua Santa Pessoa.  

O termo Cristo significa “Ungido” em Grego, assim como “Messias” no termo hebraico. A unção era para serviço especial, como o de um sacerdote ou de um rei. Os judeus, porém, esperavam que um dia Deus enviaria um libertador específico. Não seria simplesmente “um” ungido mas, sim “o” Ungido, o Messias. E é Este que o anjo anuncia. A palavra “Senhor” (tradução do grego KYRIOS) é usada no Novo Testamento somente para Deus, daí a mesma palavra ser empregada ao imperador por seus súditos, pois aquele considerava-se “deus” na Terra. “Cristo, o Senhor”, portanto, descreve o Menino nos termos mais altos possíveis. Descreve-o como Deus-Homem.

Mas como assim? Um menino que necessitava de cuidados? Precisava de amparo como um bebê comum? Este teria o mesmo título de Deus? Ou melhor, esse é o Deus que aplicaria a salvação dos pecados a humanidade? Sim! Cristo Jesus é o Deus de Israel. Ele é preexistente juntamente com o Pai e o Espírito Santo, numa “Triunidade” sempiterna. Esse é o Jesus que devemos conhecer. O Jesus que se fez homem, que nasceu como um de nós, gerado pelo Espírito de Deus; e, que se entregou como um cordeiro mudo, não tendo pecado, fazendo-se como um sacrifício substitutivo por nossas iniquidades:

E bem sabeis que ele se manifestou para tirar os nossos pecados; e nele não há pecado.” (1 João 3:5)

O apóstolo Paulo nos explica a importância não só apenas de um conhecimento superficial da Pessoa de Jesus, mas sim de algo mais profundo, algo inerente a sua plena natureza. Aquele que andou entre nós, chorou, sentiu fome, sede, frio, sorriu, ensinou, etc., era a plenitude de Deus encarnada. O único alvo da nossa adoração e redenção:

Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. (Colossenses 1:16-18)

O texto nos mostra a supremacia de Cristo e sua glória. O frágil bebê nascido na pequena Belém Efrata (cidade do rei Davi), era o criador do Universo físico e de todo mundo espiritual. Aquele que em tudo tem a primazia.  

Esse é o Cristo que deve nascer em nossos corações. Esse é nosso Deus, Salvador, Intercessor e Advogado. Muitas religiões criam estórias; exaltam pessoas normais – como eu e você -, e repartem com outros redentores e mediadores o lugar inerente somente a Jesus Cristo em nossas vidas. Isso é um falso ensino! Tal como a cosmovisão europeia que, nos apresenta uma falsa comemoração natalina: com suas simbologias, práticas culturais, e a criação de outros ícones que não seja o Deus-Homem, Cristo.

Uma visão correta de Cristo, nos isenta de toda uma gama de erros. Nos faz ter paz com Deus, e, com isso saberemos e aplicaremos o verdadeiro sentido do seu nascimento em nossas vidas. O Senhor Jesus não é um rei bélico como os judeus aguardavam. Alguém que os libertaria do domínio romano.  Não é um curandeiro e um milagreiro apresentado no “evangelho” televisivo de nossos dias. Mas, é um Soberano Salvador, O Ungido que estabeleceu um reino espiritual, em prol de libertar, pela sua misericórdia, os que creem nEle do pecado intrínseco a todos os homens, e da condenação deste. Seu nascimento, ministério e obras é muito maior do que podemos imaginar. Cristo pagou o preço pelas culpas de muitos, para com isso nos abrir a via que teremos acesso ao Pai.

Daí vem a única forma correta de devoção, culto e adoração registrada pelo amado apóstolo João em seu maravilhoso Evangelho:

Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim. (João 14:6)

Um feliz natal a todos!


Rômulo Lima

Rio de Janeiro - Dezembro de 2015

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

AMBIGUIDADE NO CONCÍLIO DE TRENTO




No século 16, a Reforma Protestante levantou as questões do pelagianismo e do semipelagianismo novamente. A resposta da igreja Católica Romana no Concilio de Trento lança luz sobre o modo como essas questões se desenvolveram. Na sexta sessão do concílio, a igreja definiu a sua doutrina da justificação e registrou cânones contra várias concepções que considerava heréticas. Os primeiros três cânones claramente reiteram o repúdio histórico da igreja ao pelagianismo puro. Os cânones 4 e 5 deixam alguma ambiguidade com relação ao semipelagianismo.

NO CÂNONE 4 DA SEXTA SESSÃO LÊ-SE:

Se alguém disser que o livre-arbítrio do homem [quando] movido e despertado por Deus, por consentimento ao chamado e ação de Deus, não coopera de forma alguma com respeito ao inclinar-se e preparar-se para obter a graça da justificação, [e] que ele não pode recusar seu consentimento se o desejar, mas que, como algo inanimado, nada faz e é meramente passivo, que seja anátema”.

A ambiguidade aqui é complexa. A primeira declaração é que o homem coopera por meio do consentimento a Deus quando este o move e estimula a vontade. Mas o que significa a vontade ser “movida e despertada por Deus”? A teologia agostiniana afirma que depois que Deus muda a disposição da vontade pela sua graça, o pecador coopera e concorda com a vontade de Deus. Esse consentimento, no entanto, é o resultado da operação monergística de Deus sobre a vontade do pecador escravizado. Os reformadores podem até mesmo concordar que a vontade se dispõe e se prepara para a graça da justificação (não regeneração), mas é improvável que essa linguagem fosse usada por eles. Tal terminologia deixa exposta uma questão crítica perante o semipelagianismo: A vontade, antes da regeneração, sempre se dispõe ou se prepara para a graça?

O concílio adicionou confusão quando negou que a vontade não pode discordar mesmo se quisesse. Essa declaração é estranha porque claramente erra o alvo. Como veremos mais tarde, os reformadores não ensinaram que a graça irresistível de Deus faz com que as pessoas sejam incapazes de discordar mesmo se o quisessem. A obra eficaz de Deus opera de tal forma que o pecador não pode discordar precisamente porque ele não quer discordar. Ele não pode escolher fazer o que não escolhe fazer. A visão agostiniana também não considerava a vontade caída como algo inanimado, embora passiva no momento em que recebe a graça da regeneração.

O teólogo luterano Martin Chemnitz recorre a Jacob Payva Andrada para uma interpretação definitiva desse cânone: 

Ele explica a opinião, tanto do sínodo [ou concílio] quanto a sua própria, assim: Que o livre-arbítrio, sem a inspiração e assistência do Espírito não pode, de fato, causar ações espirituais, mas que isso não acontece por esta razão, que a mente e a vontade, presentes no homem desde o momento do seu nascimento, não tem força alguma, qualquer poder ou faculdades necessárias para começar e efetivar ações espirituais antes da sua conversão porque esses poderes e faculdades naturais, embora não tenham sido destruídos nem extinguidos, foram tão enredados nas armadilhas dos pecados que o homem não pode se desembaraçar pela sua própria força”.

Aqui vemos que o concílio claramente negou o pelagianismo ao afirmar que a pessoa caída não pode fazer bem espiritual sem a assistência da graça. Mas permanece a questão sobre que capacidade moral tem a pessoa não-regenerada para responder à assistência da graça. Chemnitz continua:

...o Concílio de Trento... diz que o livre-arbítrio consente e coopera livremente com a graça assistente e estimuladora de Deus. Porque eles pensam que na mente e na, vontade do homem não-regenerado ainda há, desde o momento do seu nascimento nessa corrupção, alguns poderes naturalmente implantados, ou algum tipo de faculdade para as coisas divinas ou ações espirituais, mas que o movimento e uso dessas faculdades e poderes é reprimido e impedido pelo pecado no não regenerado. Assim, eles pensam que a graça de Deus e a obra do Espírito não efetuam e trabalham simplesmente naqueles que são nascidos de novo, algum novo poder, força, faculdade ou capacidade de começar e realizar impulsos e ações espirituais que, antes da conversão e renovação, não tinham a partir dos poderes da natureza, mas que eles apenas quebram as cadeias e são libertos das armadilhas para que a faculdade natural, previamente refreada, contida e obstruída, possa, agora, incitada pela graça, exercer seus poderes em questões espirituais.

Se Chemnitz estiver correto, então Trento reafirmou a condenação da igreja ao pelagianismo e retrocedeu quanto à condenação clara ao semipelagianismo. O concilio adotou essencialmente a visão semipelagiana da vontade e do pecado original.

O CÂNONE 5 DA SEXTA SESSÃO DECLARA: 

Se alguém disser que após o pecado de Adão, o livre-arbítrio foi perdido e destruído, ou que ele é algo apenas em nome, na verdade um nome sem uma realidade, uma ficção introduzida na igreja por Satanás, seja anátema.” 

Novamente, é difícil discernir o alvo desse cânone. Agostinho e os reformadores pensavam que o livre-arbítrio do homem não havia sido extinto pela queda. O que foi extinto, de acordo com Agostinho, foi a liberdade, a capacidade moral para o bem.

A resposta de João Calvino ao ensino de Trento é similar à de Chemnitz. Aos três primeiros cânones contrários ao pelagianismo, Calvino simplesmente diz “Amém”. Com relação ao cânone 4, ele escreve:

Certamente obedecemos a Deus com a nossa vontade, mas é com uma vontade que ele formou em nós. Assim, aqueles que atribuem qualquer movimento apropriado ao livre-arbítrio, à parte da graça de Deus, não mais fazem do que arrancar o Espírito Santo. Paulo declara, não que uma faculdade de vontade foi dada a nós, mas que a própria vontade foi formada em nós (Fp 2.13) e, assim, o consentimento ou obediência à uma vontade justa não vem de ninguém além de Deus. Ele age dentro de nós, sustentando e movendo o nosso coração e nos atraindo pelas inclinações que ele mesmo produziu em nós. Assim diz Agostinho. Que preparo pode haver no coração de ferro até que, por uma mudança maravilhosa, comece a ser um coração de carne?

As observações de Calvino assumem um tom ainda mais afiado quando responde ao cânone 5:

Que nós não levantemos uma discussão sobre uma palavra. Mas como por livre-arbítrio eles entendem uma faculdade de escolha perfeitamente livre e sem preconceitos de ambos os lados, aqueles que afirmam que isso é meramente para usar um nome sem uma substância, tem a autoridade de Cristo quando ele diz que livres são aqueles que o Filho liberta e que todos os outros são escravos do pecado. Liberdade e escravidão são com certeza contrários um ao outro. Quanto ao próprio termo, que Agostinho seja ouvido quando afirma que a vontade humana não será livre enquanto estiver sujeita às paixões que a dominam e escravizam. Em outro lugar, ele diz, “Sendo a vontade dominada pela depravação na qual tem caído, a natureza se encontra sem a liberdade”. Novamente, “O homem, ao fazer um mau uso do livre-arbítrio, o perdeu e perdeu a si mesmo”.

Novamente vemos o jogo das palavras liberdade, livre e livre-arbítrio. Em outro lugar, Calvino, assim como Agostinho, admitiu o livre-arbítrio no sentido em que o pecador não age por compulsão exterior. No entanto, a vontade não é livre no sentido moral porque ela é escrava das más inclinações. 

Tanto Chemnitz (um luterano) como Calvino viram em Trento um afastamento da concepção sobre a vontade de Agostinho. Eventos posteriores na igreja tendem a confirmar esse julgamento.

O Agostinianismo de Jansen Desenvolvimentos posteriores dentro da igreja Católica Romana no final do século 16 prepararam o caminho para a controvérsia jansenista do século 17. Michael Baius, um professor em Louvain, afirmava decididamente as doutrinas agostinianas da graça. Ele argumentava que o homem é completamente depravado pelo pecado: “O livre-arbítrio sem a assistência de Deus para nada serve a não ser para o pecado”. A justificação é obtida apenas depois da vontade do pecador ter sido transformada por Deus. Setenta e nove teses de Baius foram condenadas numa bula editada pelo papa Pio V. Entre as teses condenadas estavam idéias de Agostinho como:

(1) a vontade sem a graça só pode pecar; 
(2) mesmo a concupiscência contrária à vontade é pecado; e 
(3) o pecador é movido e avivado apenas por Deus.

O teólogo jesuíta Luis de Molina tentou fazer uma síntese na qual o pelagianismo, o semipelagianismo e o agostinianismo pudessem ser reconciliados. Seeberg resume suas concepções:

O homem é, mesmo em seu estado pecaminoso, livre para realizar não apenas obras naturais, mas também sobrenaturais, a cooperação da graça sendo pressuposta. A graça eleva e estimula a alma... mas o ato real de decisão não é trabalhado na vontade pela graça, mas é feito pela própria vontade, esta, no entanto, estando em união com a graça... Agora a cooperação profunda assim alcançada se torna uma mera ilusão se todos os atos livres dos seres criados forem realmente reconhecidos, de acordo com os tomistas, como desejados pelo próprio Deus a partir do seu próprio movimento original”.

Com relação à predestinação e eleição, Luis adotou uma visão presciente (baseada na sua teoria do “conhecimento mediano”), de acordo com a qual a eleição de Deus baseia-se no seu conhecimento prévio das livres escolhas humanas. “É verdade, um olho crítico irá prontamente descobrir que a combinação assim aceita é apenas aparente e que a concepção agostiniana-tomista da graça é aqui arrancada pela raiz”, escreve Seeberg. “O sinergismo na sua forma mais ousada é o primeiro princípio confesso dessa teologia. Mas a oposição a ele, inaugurada pelos dominicanos, foi debilitada pela campanha dos jesuítas, que adotaram essa teoria da graça como a doutrina oficial da sua ordem”.

A disputa entre os dominicanos e jesuítas resultou num apelo ao papa. Mas nenhuma declaração papal seria feita para permitir que os jesuítas continuassem ensinando a posição molinista sem oposição eclesiástica.

A influencia crescente dos jesuítas provocou uma forte reação no mosteiro de Port Royal (perto de Paris). Em 1640, pouco antes da sua morte, o bispo de Ypres, Cornelis Jansen, escreveu Augustinus. Nesse volume, Jansen basicamente reproduziu a teologia de Agostinho. Ele insistiu que o pecador é livre apenas dentro do domínio do pecado. Só a graça irresistível pode trabalhar o bem no homem. Os jesuítas reclamaram do livro de Jansen para o papa. Em 1653, Inocêncio X condenou as cinco teses de Jansen:

1) Alguns mandamentos de Deus são impossíveis para os homens “justos” obedecerem pela vontade e pelo esforço de acordo com os poderes que presentemente possuem. Eles também carecem da graça que faria com que essa obediência fosse possível.

2) Aqueles no estado da natureza caída nunca oferecem resistência à graça interior.

3)Para obter mérito ou demérito no estado da natureza caída, o homem não requer liberdade da necessidade. A liberdade da coerção é suficiente.

4) Os semipelagianos admitiram corretamente a necessidade da graça interior para atos individuais, até mesmo para o início da fé. Eles foram heréticos porque afirmaram que o homem pode resistir ou se conformar a essa graça.

5) É semipelagiano dizer que Cristo morreu ou derramou o seu sangue por todo e qualquer homem.

O agostinianismo foi novamente revivido na igreja por Pasquier Quesnel. No século 18, ele publicou o seu Meditations upon the New Testament. Essa obra, mais uma vez, incitou os jesuítas, que conseguiram assegurar a condenação das 101 teses desse comentário. “Com uma honestidade tremenda, não apenas a teologia agostiniana, mas toda a estrutura do Cristianismo agostiniano foi aqui condenado”, escreve Seeberg. 

“É herético ensinar: que o homem natural é apenas pecador; que a fé é dom de Deus; que a graça é dada apenas mediante a fé; que a fé é a primeira graça... que a graça é necessária para toda boa obra...”

Blaise Pascal acendeu uma faísca sobre a causa jansenista ao escrever uma série de artigos contra os jesuítas. Mas, mesmo os esforços de Pascal não detiveram o movimento da igreja para longe do curso que Agostinho havia estabelecido séculos antes.

O SEMIPELAGIANISMO NO CATECISMO

No novo Catecismo da Igreja Católica (1994), muitos artigos tratam da liberdade e da responsabilidade humana. Alguns desses artigos incluem o que se segue:

A liberdade é o poder, arraigado na razão e na vontade, de agir ou não agir, fazer isto ou aquilo, e assim realizar ações deliberadas sob a própria responsabilidade da pessoa. A pessoa modela sua própria vida pelo livre-arbítrio. A liberdade humana é uma força para o crescimento e a maturidade na verdade e na bondade; ela alcança a sua perfeição quando dirigida a Deus... Enquanto a liberdade não se vincular definitivamente ao seu bem final que é Deus, há a possibilidade de se escolher entre o bem e o mal e, conseqüentemente, crescer na perfeição ou falhar e pecar. Essa liberdade caracteriza propriamente os atos humanos. É a base para o louvor ou culpa, mérito ou reprovação.

As palavras acima revelam a visão semipelagiana segundo a qual o homem caído retém a capacidade moral de escolher entre o bem e o mal. Em outro lugar, o Catecismo declara:

Deus criou o homem um ser racional, conferindo a ele a dignidade de uma pessoa que pode iniciar e controlar suas próprias ações. ‘Deus desejou que o homem fosse “deixado nas mãos do seu próprio conselho”, para que pudesse, de acordo com si mesmo, buscar seu Criador e livremente alcançar sua completa e abençoada perfeição pelo ato de apegar-se a ele”.

Com relação ao pecado original, o Catecismo observa que a igreja rejeitou tanto a visão pelagiana quanto a protestante. Os reformadores, diz o Catecismo, “ensinaram que o pecado original perverteu radicalmente o homem e destruiu a sua liberdade; eles identificaram o pecado herdado por cada homem com a tendência para o mal (concupiscentia), o que seria insuperável”.

De modo diferente de Agostinho e dos reformadores, Roma não considera essa inclinação ao mal como insuperável. Ela pode ser superada por meio de um empenho no que o Catecismo chama de “uma batalha difícil”. 

Toda a história do homem tem sido a história de um sério combate com os poderes do mal, assim nosso Senhor nos diz, desde o próprio início da História até o último dia. Ao se encontrar no meio do campo de batalha, o homem tem de lutar para fazer o que é certo, isso a um grande custo para si mesmo, e é ajudado pela graça de Deus que obtém o sucesso em alcançar a sua própria integridade interior”.

Resumindo, Roma claramente continua a repudiar o pelagianismo puro e a ensinar que o homem precisa da assistência da graça divina para a salvação. Contudo, Roma também ensina que o homem caído retém a capacidade (embora sua vontade tenha sido enfraquecida) para cooperar com essa graça assistente, exercendo a vontade no seu poder natural. Isso representa o triunfo do semipelagianismo sobre o agostinianismo.

 Por R.C. Sproul
Rômulo Lima
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O ANJO GABRIEL SAUDOU MARIA COM O TERMO "AVE"? (UMA ANALISE DA ANUNCIAÇÃO)


Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores.” (Mateus 7:15 – Bíblia Ave Maria)

O Senhor Jesus nos ensina algo muito significativo neste texto de Mateus: Que os cristãos deveriam ter cautela ante os supostos profetas, mestres e doutores da religião. Houve muitos falsos profetas na época do Antigo Testamento. Tais só profetizavam coisas de seu próprio coração, e, muitas vezes somente o que era agradável ao rei e ao povo.

Nos tempos de Cristo, e ainda hoje, também há falsos profetas, mestres e doutores. Homens que criam normas e doutrinas religiosas que não condizem com o verdadeiro Cristianismo. 

Devemos estar sempre atentos para tais que procuram envolver a mensagem simples do Evangelho, a autoridade da Bíblia, juntamente, com o culto, louvor, honra, glória e adoração devidos somente a Deus em Cristo Jesus.

Um exemplo explícito do que digo está no ensinamento do Catolicismo Romano com relação à Maria. Com o intuito de engrandecer a pessoa da mãe do Salvador, o Catolicismo Romano criou uma Mariologia ampla, envolta em mitos e doutrinas extra Bíblicas.

Todos já ouviram a expressão “Ave”. Ela era usada no mundo antigo exclusivamente para o imperador Romano em sua honra, glória e exaltação. Daí a expressão: “Ave César”. Até mesmo os gladiadores saudavam o imperador Romano dessa forma: “Ave, Imperador! Os que vão morrer te saúdam!” 

O Catolicismo aplicou essa saudação a Maria. Mas será que ela está na Bíblia? É o que vamos analisar. A palavra grega para cumprimento é “χαιρε” (kaire), que a Bíblia Ave Maria traduziu por “AVE” seguindo o erro da tradução Vulgata de Jerônimo que usou: “have gratia plena” que literalmente significa “Ave, Cheia de Graça”.  

Tal cumprimento aparece exatamente na forma “χαιρε” (kaire), cinco vezes; e, na forma “χαίρετε” (kaírite) uma única vez nos Evangelhos. Vamos aos textos.

PRIMEIRO: Aproximou-se imediatamente de Jesus e disse: Salve Mestre. E beijou-o.” (Mateus 26:49 – Bíblia Ave Maria)

καὶ εὐθέως προσελθὼν τῶ ἰησοῦ εἶπεν, χαῖρε, ῥαββί· καὶ κατεφίλησεν αὐτόν.” (Mateus 26:49 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-mateus/26/#.VGuOqjTF_kU])

Transliteração: “Kaí euthéos prosselthom tô Iesou eípen, KAIRE rabbí kaí katefilessen auton.

SEGUNDO: Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-lha na cabeça e puseram-lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante dele, diziam com escárnio: Salve, rei dos judeus!” (Mateus 27:29 – Bíblia Ave Maria)

καὶ πλέξαντες στέφανον ἐξ ἀκανθῶν ἐπέθηκαν ἐπὶ τῆς κεφαλῆς αὐτοῦ καὶ κάλαμον ἐν τῇ δεξιᾷ αὐτοῦ, καὶ γονυπετήσαντες ἔμπροσθεν αὐτοῦ ἐνέπαιξαν αὐτῶ λέγοντες, χαῖρε, βασιλεῦ τῶν ἰουδαίων,” (Mateus 27:29 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-mateus/27/#.VGuPMzTF_kU])

Transliteração: “kai pléxantes stéfanon ex akanthon epéthekan épí kefales autou kai kalamon em te dexia autou kai gonypetésantes emprosthen autou enepaixian autõ légontes KAIRE bassileu tõn ioudaíon.

TERCEIRO: Nesse momento, Jesus apresentou-se diante delas e disse-lhes: Salve! Aproximaram-se elas e, prostradas diante dele, beijaram-lhe os pés” (Mateus 28:9 – Bíblia Ave Maria)

"καὶ ἰδοὺ ἰησοῦς ὑπήντησεν αὐταῖς λέγων, χαίρετε. αἱ δὲ προσελθοῦσαι ἐκράτησαν αὐτοῦ τοὺς πόδας καὶ προσεκύνησαν αὐτῶ." (Mateus 28:9 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-mateus/28/#.VGuRFzTF_kU])

Transliteração: “kaí ídou Iesous ypéntesen autais légon KAÍRETE aí dé proselthousai ekpátesan autou tous podas kaí proskynesan auto.

QUARTO: “E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus!” (Marcos 15:18 – Bíblia de Jerusalém)

καὶ ἤρξαντο ἀσπάζεσθαι αὐτόν, χαῖρε, βασιλεῦ τῶν ἰουδαίων·” (Marcos 15:18 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-marcos/15/#.VGuT9jTF_kV])

Transliteração: “kai erxanto aspázesthai aouton KAÍRE bassileu tõn ioudaíon.

QUINTO: Entrando, o anjo disse-lhe: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo.” (Lucas 1:28 – Bíblia Ave Maria)

καὶ εἰσελθὼν πρὸς αὐτὴν εἶπεν, χαῖρε, κεχαριτωμένη, ὁ κύριος μετὰ σοῦ.” (Lucas 1:28 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-lucas/1/#.VGuVXzTF_kU])

Transliteração: “kai eísselthon prós autén eípen KAÍRE, kekaritoméne, hó Kyrios metá sou.

SEXTO: "Aproximavam-se dele e diziam: Salve, rei dos judeus! E davam-lhe bofetadas." (João 19:3 – Bíblia Ave Maria)

καὶ ἤρχοντο πρὸς αὐτὸν καὶ ἔλεγον, χαῖρε, ὁ βασιλεὺς τῶν ἰουδαίων· καὶ ἐδίδοσαν αὐτῶ ῥαπίσματα.” (João 19:3 [http://www.bibliacatolica.com.br/septuaginta/sao-joao/19/#.VGuWeTTF_kU])

Transliteração: “kaí êpgonto prós autón kaí êlegon, KAÍRE, hó bassileus tôn ioudaíon kaí edidossan.” 

Notaram alguma diferença na tradução? É nítido que a única vez que a palavra grega “χαιρε” (kaire), - que é uma saudação comum como: "Salve, Graça, Alegra-te, Olá, etc". - foi traduzida por “AVE”, somente em Lucas 1:28. com o intuito de exaltar Maria e defender a doutrina extra Bíblica da Imaculada Conceição

Nem ao menos em Mateus 26:19, Mateus 27:29, Marcos 15:18 e João 16:3, textos que a palavra é dirigida diretamente a Jesus Cristo, ela foi traduzida por “AVE”. Somente na referência a Maria!

É muito interessante que o Senhor Jesus também usou a palavra “χαίρετε” (kaírite), para saudar as mulheres, após sua ressurreição, quando estas foram ao seu túmulo. Será que o Senhor Jesus, o Deus Todo Poderoso queria reverenciá-las da forma como texto é aplicado (pelo catolicismo) a Maria? Logicamente que não! 

Queridos leitores(as) o Catolicismo Romano não está interessado em ensinar aos seus leigos fieis a verdade. A religião Romanista está preocupada em salvaguardar suas doutrinas que não são Bíblicas. Traduziram a Escritura de forma tendenciosa para com isso aplicar a sua interpretação. Prendem seus adeptos com uma suposta “única autoridade Divina”, engodando, criando e sofismando tudo que é de mais errado nos preceitos que desenvolveram. A Bíblia nos exorta para atentarmos aos tais:

E ninguém vos seduza com vãos discursos. Estes são os pecados que atraem a ira de Deus sobre os rebeldes.” (Efésios 5:6 – Bíblia Ave Maria) 

Rômulo Lima 
(Acadêmico em Teologia e Apologética Aplicada)